ensemble bach da metropolitana em queluz: il cor de la musica
appa writes on 03.Mar.05 at 14h45
Assisti a um bom concerto o passado Sábado, no Palácio de Queluz. O Ensemble Bach da Orquestra Metropolitana de Lisboa interpretou:


O Ensemble Bach são:

Como solista vocal o barítono Rui Baeta.

Confesso que a minha expectativa não era alta. Era mais curiosidade que antecipação. Foi por isso uma agradável surpresa este Ensemble Bach da Metropolitana.

Gostei acima de tudo da atitude interpretativa. Disciplina, aplicação, rigor: estamos aqui para tocar.

Não tem instrumentos de época, exceptuando o cravo. Mas a maneira de tocar é cuidada. Doseamento do vibrato nos violinos. Apenas me desgradaram no Bach. Houve aí uma cedência ao superficial, ao apelar à lamechice por vai do vibrato.

De resto agradou-me a maneira de tocar. O acerto dos violinos foi o que mais impressionou, sobretudo no concerto de Francesco Durante. A peça que mais me agradou neste concerto. O nome do concerto "La Pazzia" — Loucura — é bastante "louca": dissonâncias bastantes, variações de ritmo abruptas, muita côr instrumental. Alternando o lento com o bastante rápido. O acerto dos violinos manteve-se durante toda a peça. Um quarteto de violinos coeso, com Anibal Lima a dar o mote para uma muito boa prestação.

Paulo Gaio Lima esteve bem no violoncelo. Tal como Paul Wakabayashi na viola. Era visível o gozo que os músicos tinham ao tocar esta difícil mas divertida peça. Igualmente bem o o cravista Marcos Magalhães e o contrabaixista Vladimir Kouznetsov.

Quanto ao barítono Rui Baeta. Coisas houve de que gostei, de outras, nem por isso. Esteve mal no Bach. Bach não é Verdi. Tem uma concepção radicalmente diferente da prosódia, e a teatralidade é contida e não exacerbada. A teatralidade está na música. Não necessita de furori espressivi. Bach surge na tradição da música no culto luterano, em que os excessos do catolicismo eram mal vistos, isto já muito tempo depois da reforma. Donde os furores expressivos estariam bem no palco com uma ópera, mas não numa igreja.

Teve também pouca atenção à questão da articulação do texto com a música. Adoptando uma postura demasiadamente autónoma em relação aos instrumentistas. Não gostei.

A ária de Platée saiu bem. Gostei da clareza do texto, da contenção. A boa prestação dos instrumentistas no minueto. Marcando bem o caractér de dança da música.

A ária de Achilla é belíssima. Mas desgradou-me a interpretação de Rui Baeta. Achei demasiado esforçado. Sem sensibilidade para as subtilezas do texto. Cada palavra que lá está é articulada com a música de uma forma genial por Handel.

Tu sei il cor di questo core,
sei il mio ben, non t'adirar!
Per amor io chiedo amore,
più da te non vo' bramar.
Tu sei, &c.

As duas primeiras linhas, são uma confissão amorosa, ao passo que o "non t'adirar" é um pedido, quase uma prece. No enredo da ópera Achilla ama Cornelia perdidamente e quer que ela retribua o seu afecto. Mas esta é insensível aos seus avanços e despreza-o. Donde Achilla confessa o seu amor e apela ao bom coração de Cornelia. Não te zangues, não fiques irada.

Ora o "t'adirar" deve ser enfático e dá ao cantor a oportunidade de embelezar. Mas Rui Baeta adoptou um registo muito semelhante nas duas partes da frase. Utilizando a música e a letra mais como um pretexto exibicional vocal do que o procurar comunicar um estado de alma ao mesmo tempo angustiado e exaltado. A confissão do amor por alguém é sempre delicada, é sempre um momento de vulnerabilidade. O barítono não conseguiu transmitir este estado de alma. Adoptou um registo de fogo de artifício vocal, que também está em Handel mas que não é a razão de ser da música. O virtuosismo vocal está ao serviço da música e não ao contrário. Isto não é Verdi. Há uma genealogia que os liga, mas anos luz os separam em termos estéticos.

Por fim Rui Baeta adaptou-se mal à acústica do local. Mais que enchendo a sala do trono com a sua voz. Que tem um timbre agradável. Parece-me contudo que exagerou na amplitude.

Sei que é um cantor jovem no início de carreira, e que estas falhas serão corrigidas com o tempo e com a experiência. De louvar a entrega com que abordou a sua interpretação em perfeita conssonância com os seus colegas instrumentistas.

Algumas notas sobre o programa distribuido. Era paupérrimo. Não eram indicados os andamentos, nem tampouco o número de catálogo correctamente. 56 quê? No caso da cantata de Bach.

Não está indicado o título da ária do "Giulio Cesare in Egitto", já para não falar no acto em que intervém na ópera de Handel.

Tanto espaço desperdiçado com efeitos infantis de mau design e com o currículo da metropolitana. Nada sobre o currículo do Ensemble Bach, nem dos músicos que o compõem. Transmite a ideia que o Ensemble Bach é um electrão livre recente da Orquestra Metropolitana e que deverá ser atraído para mais próximo do núcleo brevemente.

Sobre a questão dos bilhetes. No