music
Assisti ontem a um
excelente concerto de
Marco Beasley acompanhado pelo cravista
Guido Morini na bela biblioteca do Palácio de Mafra, integrado no
8º Festival de Música de Mafra.
É sem dúvida um dos melhores concertos a que vez alguma tive oportunidade de assistir. Coloquo-o num grupo reduzido ao lado do
Sidus Preclarum pela
Mala Punica, ou as Lamentações de Cavalieri pelo
Le Poème Harmonique, e mais uns poucos.
À partida, um cravista e um cantor pouco podem fazer em termos de impressão feita no ouvinte se comparados com um ensemble instrumental maior. Uma maior estimulação sensorial traduz-se em geral por uma mais profunda impressão. Será uma regra útil, que em geral se observa, mas que, como todas as regras, tem excepções.
Ontem eu e os que quase por completo encheram a biblioteca presenciamos uma dessas excepções.
Marco Beasley cantou e encantou. Um domínio da voz e do texto, do seu sentido mais profundo, uma presença em palco que é discreta mas viva, expressiva mas contida.
O repertório que Beasley e os seus companheiros dominam é do período em que muitas experiências foram feitas, e a eminentemente italiana atitude teatral e representativa "invadiu" a música. Essencialmente dos sécs. XVI e XVII.
Beasley sabe exactamente o peso de cada palavra e de como as notas que a acompanham o podem "suportar". De modo a comunicar a maior densidade possível de emoções ao ouvente.
Alguém disse que uma obra de Arte é uma coisa que requer dois. O artista e o que disfruta do seu labor. A Arte só existe quando estes dois se encontram a meio caminho, cada um com as suas ideias e preconceitos, mas com espírito aberto, dispostos a se deixarem mesmerizar pelo olhar um do outro.
A mesmerização, ou o acto hipnótico, que uma apreciação de uma obra de Arte envolve, requer um bom sujeito hipnótico, isto é um bom apreciador, mas também um bom hipnotizador, i.e., um bom artista. Quando isso ocorre, então o nível de profundidade que se consegue atingir no estado hipnótico de fruição da Arte é algo de único na experiencia humana.
Marco Beasley é um bom mesmerizador, e se houver da nossa parte disponibilidade para suspender o diálogo interno então podemos atingir um nível de fruição que é raro.
Julgo ontem ter presenciado isso. O silêncio absoluto na sala, nem sequer a respiração se ouvia. Os sonoros suspiros que se ouviam no fim de cada peça. Foi de facto um momento único.
Podia elaborar sobre cada uma das peças que Marco Beasley cantou ou que Guido Morini tocou no cravo, mas em vez disso vou para já indicar o programa e em seguida falar sobre uma peça que cada um interpretou. O programa foi:
- Felice Sances (ca. 1600-1679): Cantata sopra la passacaglia — Cantate… libro II, Venecia, 1633
- Claudio Monteverdi (1567-1643): Si dolce è 'l tormento — IV scherzo delle ariose vaghezze, Venecia, 1624
- Giovanni Stefani (séc. XVIII): Amante felice — Affetti amorosi, Venecia, 1618
- Claudio Monteverdi: In un fiorito prato — "L'Orfeo, favola in musica", Venecia, 1607
- Cherubino Busatti (? – 1644): Angela siete
- Guido Morini (1959): Se mai per meraviglia (frotolla do séc. XVI) — Frotolle, libro II, Bossiniensis, Venezia, 1511
- Girolamo Frescobaldi (1583-1643):
- Così mi disprezzate — Primo libro d'arie musicali…, Firenze, 1630
- Varie partite — interpretada por Guido Morini como solista no cravo
- Cláudio Monteverdi: Il Combattimento di Tancredi e Clorinda — Madrigali guerrieri…, Libro VIII, Venezia, 1638
A peça de eleição para mim, foi o
Combattimento de Tancredi & Clorinda do 8º livro de madrigais de Monteverdi.
Esta peça (re)apresentada pela primeira vez no ano de 1624 na véspera de Carnaval em Veneza no
Palazzo Mocenigo perante toda nobreza reunida, nas palavras do próprio Monteverdi. Foi nesta peça que Monteverdi experimentou o
"stile concitato" que corresponde à mais violenta dos três afectos da alma humana:
a ira.
Esta peça "deve" ser interpretada por
três cantores nos papeis do
Narrador um tenor, — Testo em italiano —
Clorinda, uma soprano, e um tenor como
Tancredi. O narrador é uma figura equivalente ao coro da tragédia grega. Ele não só descreve a acção e o local, como comenta-a para elucidar o ouvinte.
Ontem houve só um tenor em palco, mas com gestos muito bem concebidos e com subtis mudanças de registo vocal conseguiu mais que bem suprir a falta de outros dois cantores.
Foi um momento único, a descrição da batalha, o calor da refrega: tudo isso se sentiu como se fossemos transportados para o local da acção.
A formação de actor de Beasley é essencial para conseguir criar estes ambientes sonoros.
Guido Morini esteve
muitíssimo bem. Gostei particularmente da sua improvisação sobre a peça do
Orfeo de Monteverdi. Beasley saíu discretamente do palco e deixou Guido Morini sózinho para "brilhar" na sua interpretação.
Outra coisa, que já há muito tempo não presenciava, foi a generosidade que Beasley & Morini ontem exibiram ao presentear o público com
três encores. Foram eles:
- La Tarantella del Gargano: Da tradição da região de Nápoles — Puglia —, obviamente cantada em língua napolitana.
- Adrian de Willaert (c. 1490-1562) : canção em língua napolitana.
- Henry Purcell (1659-1695): Musicke for a While.
Era audível e visível o cansaço de Beasley, e o controlo da respiração e fluidez dos gestos já não era a mesma de antes. Mas mesmo assim o encanto manteve-se.
Haverá quem diga que Marco Beasley não é um cantor de "música antiga", mas um cantor "popular". As etiquetas são sempre fontes de limitações. Impedem de ver o que está para além delas. E se há quem em nome da "Ciência da Musicologia" se arrogue proferir sentenças definitivas acerca deste ou aquele género interpretativo como não sendo "autêntico", ou melhor ainda, não sendo "verdadeiro", isso em nada afecta o que ontem ali presenciei. A ciência era uma espécie de aia da religião, e só ganhou a liberdade quando passou a adoptar uma abordagem céptica baseada na experiência. E aqui a experiência é saber se funciona. Isto é, se o público reage como deve ser ao que lhe é apresentado. Tudo o resto é gastar tempo com argumentações mais ou menos circulares, logo inúteis.
Foi pena a lotação não ter esgotado. Mais que merecia que assim tivesse sido. Contudo, falta-lhe uma divulgação mais estratégica em Lisboa, onde se encontra o grosso do público a que esta música apela. Basta alguns outdoors em locais devidamente escolhidos para melhorar a percepção pública do evento.
Na medida das minhas modestas possibilidades tenho feito o que posso. Mais que isto implica outro género de envolvimento.
Obrigado ao Festival de Mafra: a quem o organiza e dirige.
A vida é bela!