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Assisti ontem a um
muito bom concerto na
Igreja do Instituto de São Pedro de Alcântara integrado no festival
Música em São Roque.
O
Coro Gulbenkian sob a direcção do maestro
Jorge Matta interpretou um programa de polifonia portuguesa dos séculos XVII e XVIII.
- Diogo Dias Melgas (1638-1700)
- Salve Regina
- In jejunio et fletu
- Adjuva nos
- Primeira lamentação de Quinta Feira Santa
- Recordare Virgo
- Francisco António de Almeida (1702-1755):
- Miserere quator vocibus
- "Si quaeris miracula" — Responsorio a 4 concertato per la Festa de Santo Antonio
- Lamentatio prima in Sabbato Sancto a 4 concertata
- Anónimo: "Ya las sombras de la noche" — extra programa
O que mais se destaqua é o facto do coro ter um número de elementos considerável:
29, e mesmo assim conseguir fazer sobressair as texturas polifónicas.
Sei bem que há peças da Renascença para mais de 20 partes, mas aí o número de cantores que faz cada parte é reduzido, embora, tenha necessariamente de haver muitos cantores.
Mas quando as obras são a 4 ou 8 partes, o número de cantores por parte pode ser um problema ao negociar entre a clareza e o volume. Surgem questões de dinâmica que são muito mais difíceis de controlar, de entrada e saída de cada uma das secções. Para ouvinte o caractér polifónico fica sempre afectado quando o número de cantores por parte aumenta.
O coro que para mim é a prova de que muitos cantores não são sinónimo de falta de subtileza e de um controlo da dinâmica deficiente é o
RIAS Kammerchor. São 50 ou 60 cantores que são vocalmente ageis como um coro de meia dúzia de elementos.
Das peças que o coro Gulbenkian interpretou ontem, as 2 lamentações, primeiro a de Dias Melgas, e depois as de F. A. de Almeida, foram as obras que mais comprovaram o acerto do coro. Tornando sempre claro as várias linhas e controlando muito bem a dinâmica.
A peça que mais me agradou ouvir foi a Lamentação para o Sábado Santo de F. A. de Almeida, que encerrou o programa. Aqui o controlo da dinâmica, e a "horizontalidade" das várias vozes atingiu o seu valor mais alto. Com os 3 solistas a estarem muitíssimo bem.
O responsório
"Si quæris miracula" foi a peça mais "jovial" do concerto com o coro Gulbenkian a vincar bem o contraste entre esta peça e as lamentações ou o Miserere que interpretou.
Perante o agrado do público com o bom desempenho do coro, este gentilmente ofereceu um número extra-programa que embora não sendo uma obra tão complexa quanto as demais, agradou-me bastante pela utilização do espaço. Até aí os coralistas tinham cantado do altar-mor numa boa disposição que procurava explorar a acústica da igreja, dividiram-se num rectângulo de cantos arrendondados circundando os espectadores. O efeito conseguido foi magnífico.
A questão da espacialidade deve ser mais explorada. Percebo que isso torna particularmente difícil a vida do maestro, mas por outro lado proporciona uma experiência auditiva magnífica. Parte do fascínio que os concertos da
Mala Punica sobre mim exerceram teve a ver precisamente com a utilização da espacialidade. Deslocando grupos de cantores pelo espaço e mesmo colocando os solistas em locais "insólitos". De modo a explorar o mais possível a acústica do local e oferecer ao ouvinte algo de inesquecível.
A peça extra-programa pareceu-me ser um vilancico. Assim que tiver o seu título actualizo este escrito.
As questões organizativas também melhoraram da
semana passada para esta. Havia um programa bastante melhor em termos gráficos, e não as páginas A4 fotocopiadas e dobradas da semana anterior. A igreja estava cheia e no última página surge um anúncio ao próximo concerto. As tias & os rebuçados também parecem ter ido para outras bandas.
Em suma um
muito bom concerto que prova que o Coro Gulbenkian é capaz de fazer um bom trabalho em prol da música portuguesa. E que para mim obliterou a má impressão que com dele fiquei quando o ouvi na primeira Festa da Música do CCB a submergir a Paixão segundo São João de J. S. Bach num maremoto vocal. Talvez o problema esteja no maestro Corboz e na sua concepção jurássica das obras do Barroco.
A divulgação da boa música antiga portuguesa em formações a cappella parece-me ser uma vertente que o
Coro Gulbenkian devia desenvolver, e preferencialmente fora da Gulbenkian.
Ao coro Gulbenkian ao maestro
Jorge Matta:
Keep up the good work.