o sósia de schubert em mafra: veni, non vidi & algo vici
appa writes on 31.Oct.04 at 20h51
Assisti ontem a um bom concerto integrado no VIII Festival Internacional de Música de Mafra. Luís Madureira concebeu um espectáculo em torno do Lied de Franz Schubert (1797-1828), sobre um poema de Heinrich Heine: Der Doppelgänger.

Os intérpretes são:


Para além dos músicos tem ainda a participação de:


Com base neste poema e na música de Schubert, e com o apoio do Festival Temps d'Images constrói-se uma obra que explora as várias vertentes desta obra de Schubert.

  1. o som dos fonemas e as emoções a eles associadas;

  2. o som do piano e as suas possibilidades expressivas em ligação com as imagens que eram projectadas e com o texto e sons cantados;

  3. o contraponto entre o texto recitado em português e o texto cantado no alemão original;

  4. a ligação entre o texto a música e o vídeo


Deixei o vídeo para o fim. Não é inocente. O vídeo é mau muitos furos abaixo da música, seja ela a de Luís Madureira ou a de Schubert.

O problema começa logo com a escolha do meio. Sabe-se já há muito tempo que a forma e o conteúdo estão indissociavelmente ligados. O vídeo é a coisa mais remota que pode existir do universo Schubertiano. O universo de Schubert é o do séc. XIX e do romantismo. Exemplo de cineastas que foram influenciados pelo romantismo são muitos. Basta pensar em Friedrich Murnau ou Fritz Lang. O expressionismo alemão é um fruto do romantismo alemão. Um dos seus mais belos frutos. No expressionismo há uma busca da expressividade através do exacerbar de certos aspectos, a luz, a sombra, as proporções, a interacção entre o som e a imagem, como no fabuloso M de Lang.

Pedro Madeira foi ao arrepio de tudo isso e resolveu brindar-nos com um vídeo que nada subtilmente ilustra as palavras do poema de Heine. A côr descolorida do vídeo, a sua falta de textura, o seu grâo incaracterístico são atributos nos antípodas do universo Schubertiano. Que sugere muito mais o preto e branco, a textura da película, o seu grão irregular mas expressivo.

Arrisco que uma sucessão de diapositivos a preto e branco devidamente escolhidos seria muito mais interessante, e daria à obra uma unidade que não tem por via do mau vídeo. Música e imagem parecem provir de galáxias distantes. Na música há uma sensibilidade a Schubert e ao tema que o vídeo não suspeita. Poder-se-ia até utilizar o ruído do projector de diapositivos como elemento musical, em lugar do parasitário ruído da ventoonha do projector de vídeo.

A sucessão de imagens deve ser muito pausada para permitir que cada uma seja absorvida de forma conveniente pelo espectador. Em vez disso foi servido um vídeo amador — no mau sentido do termo — que releva de uma insensibilidade ao universo Schubertiano. Não é novidade que sendo pouco amante do romantismo abro algumas excepções, a mais notável delas é Schubert. Nos seus Lieder legou-nos alguns dos mais sublimes momentos de Arte musical que o humano produziu até hoje. Para não entrar na fantasia e leveza das suas peças para piano, como os improvisos, por exemplo.

O temível piano Yamaha de tão má memória no concerto da OrchestrUtópica fez a sua reaparição. Embora melhor afinado do que então voltou a fazer das suas. Para além da pobreza harmónica, um pouco menos pobre do que da outra vez, é certo, o modo como as cordas são amortecidas é execrável. Sempre que Jeff Cohen tirava o pé do pedal de súbito, havia um som desagradável que era produzido como se as cordas fossem cortadas e não abafadas.

O piano e o vídeo prejudicaram uma leitura interessante e sensível da obra de Schubert e do poema de Heine.

Sabe-se já que o Festival Temps d'Images só apoia projectos em que a imagem entre. Era possível ter feito a imagem entrar de uma forma muito mais esclarecida e na veia do que a música fez. De qualquer forma este tipo de projecto merece ser estimulado, porque partindo do universo da música clássica cria um espectáculo que pode captar novo público para esta música, lançando sobre ela um olhar distinto dos lugares comuns que por aí pululam.

Já agora uma nota sobre o programa elaborado pelo Teatro Nacional Dona Maria II. João Lagarto, director artístico desta instituição, escreve:

Hoje em dia, em que a linha de demarcação entre o teatro strictus sensus e as outras artes performativas se esbate cada vez mais [...]

O enfâse é meu. Para além da buzzword "artes perfomativas", talvez convenha lembrar que desde o teatro grego que as outras artes performativas como a música estavam presentes. Para sublinhar a acção e para a comentar sonicamente, ajudando o coro.

Termina o texto escrevendo:

Este diálogo [entre imagem e música] enunciado nunca exclui a sua continuidade, a continuidade que se assegura na interacção com o espectador.

Não sei o que isto quer dizer. Parece-me uma instância do típico prosar da crítica pós-moderna. Qual interacção? E será que só a música em si já não encerra muita "interacção". Ou precisa da ajuda das outras "artes performativas" para interagir? Não sei.

Dado que este foi o último concerto a que fui, uma última palavra para o Festival de Mafra e para o seu director artístico Miguel Lobo Antunes. No actual panorama mais ou menos monocromático de concertos em Portugal, o Festival de Mafra tem-se vindo a afirmar como um espaço de bom gosto e de risco. Não obstante estar num local excêntrico em relação aos locais "habituais" como o CCB ou a Gulbenkian, assume-se como alternativa para quem quer qualidade e está disposto a levantar o tardoz da cadeira.

Longe das turbas geriátricas e afins que enxameiam os locais habituais e que vão a tudo, seja o que for só porque é "prático".

Faço votos para que agora ao leme da Culturgest, Miguel Lobo Antunes crie uma programação musical de qualidade naquela instituição, até aqui inexistente neste domínio, e de importância quase residual na vida cultural lusa.

A Luís Madureira, a Miguel Lobo Antunes e todos os que tornam o Festival de Mafra possível:

Keep up the good work.