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fm 2004 um mês após: Romântico mas não Artístico
fm 2004 um mês após: romântico mas não artístico
appa writes on 23.May.04 at 06h32
Foi a primeira Festa da Música versando os compositores românticos, neste caso a geração de 1810: Schumann, Liszt, Mendelssohn & Chopin.

Fui a 5 concertos, o melhor a que assisti foi o de Midori Seiler com a Akademie für Alte Musik, interpretando o concerto para violino de Mendelssohn no domingo à tarde. O segundo melhor no Sábado à tarde com Melvyn Tan acompanhado pelo Concerto Köln e o concerto para piano de Mendelssohn; o terceiro melhor o do Chorus Musicus com peças religiosas de Mendelssohn; o quarto melhor o de Andreas Staier com a Kammerorchester Basel interpretando o concerto para piano-forte número 1 de Schumann.

Contudo a melhor música que lá ouvi, não foi numa sala de concerto, nem tão pouco nos espaços abertos da Festa da Música. A melhor música que lá ouvi foi no centro de exposições, num vídeo que lá passava: a música era "Ombra Fedele" de Ricardo Broschi da banda sonora do filme Farinelli.

Em geral toda a música romântica é sentimental e todo o sentimentalismo é doentio. No panorama dos compositores românticos Schubert e Beethoven são as excepções ao caractér iminentemente decadente da música romântica.

O caractér confessional, o furore espressivo como fim e não como meio. A busca da originalidade e da genialidade: coisas que não se procuram mas se encontram.

A sobre-estimação do artista, a própria ideia do artista que permanece até hoje é um produto do ideário romântico. A fronteira entre a arte que se julga Arte mas que não é, e a Arte que não se julga Arte mas que é, torna-se difusa, para não dizer inexistente. Isto vem do mesmo sítio donde vem a "validação" de coisas como a Popart e lixo semelhante.

No seu melhor a música romântica é uma distracção mais ou menos enfadonha, no seu pior é um veículo para as angústias do compositor — Brahms, Chopin, Schumann.

A escolha de compositores românticos como tema da Festa da Música tem uma série de consequências: a mais importante é aquilo que designo por Gulbenkianização do público. A subida considerável da média etária do público, que este ano era essencialmente geriátrico. Para quem como eu, esteve em todas as Festa da Música, era visível o quanto tinha mudado desde o ano passado — dedicado ao Barroco italiano.

Se um dos objectivos estimáveis da Festa da Música é a de atrair novos públicos para a música clássica, não é seleccionando música romântica que isso se consegue. Consegue-se sim atrair as hordas de tias com os seus inseparaveis rebuçadinhos, que despudoradamente desembrulham durante os concertos, alheias aos incómodo que causam, aos restantes espectadores e aos intérpretes.

Há já algum tempo que vou a concertos e há uma constante no que diz respeito ao público: quanto mais "insólita" é a música mais jovem é o público, quanto mais "banal" é a música mais velho é o público. Um concerto da Mala Punica, sobre a música do Outono do Medievo, tem um público muito mais jovem que um concerto de Alfred Brendel interpretando Brahms na Gulbenkian.

Esta tendência confirma-se lendo os inquéritos que a Antena 2 antes publicava no seu boletim, em que a faixa etária pós 65 anos é maioritária — ou era (?).

Neste documento analiso um pouco as razões que para mim estão subjacentes a esta divisão, não vou aqui repeti-las.

O franchising é cómodo mas têm os seus inconvenientes. A capacidade de iniciativa é quase emasculada, está-se à mercê de uma agenda alheia. Só assim se percebe que no ano em que se comemoram 300 anos do nascimento de Carlos Seixas, a Festa da Música lhe tenha passado ao lado. Saliento que tanto quanto julgo saber nada está programado para assinalar este evento. Quando digo nada, quero dizer nada de excepcional, tal como uma série de concertos com agrupamentos de grande nível interpretando música de Seixas, registos discográficos por grandes intérpretes: nada!

Não haverá já massa crítica para lançar uma "Festa da Música" genuinamente lusitana? Com uma agenda nossa, para atrair novos públicos, para divulgar a boa música, inclusa a de compositores portugueses.

I wonder.