music
Assisti no passado Sábado a um
bom concerto pelo
Ensemble Vocal Olisipo com o flautista
António Carrilho. A proposta era de uma viagem de 10 séculos entre Perotin (séc. XII) e os contemporâneos Ivan Moody e Ryhoei Hirose.
O programa interpretado com o título a
Nova Música Sacra foi:
- Ivan Moody (1962): The prophecy of Symeon (2001) — obra dedicada ao grupo vocal Olisipo
- Lucente Stella: Codex Rossi (séc. XIV) — interpretada por António Carrilho na flauta
- Perotin (ca. 1198): Viderunt omnes — flauta e coro
- Ryhoei Hirose (1930): Hymn (1980) — flauta e voz
- Ivan Moody: The meeting in the garden (1998) — obra dedicada ao grupo vocal Olisipo
As peças de
Ivan Moody inspiram-se na música para a liturgia ortodoxa, com texturas características desta música e também com uma grande preocupação com a clareza do texto cantado. A voz principal canta o texto e as outras vozes comentam o texto e reforçam certas passagens.
A primeira peça foi interpretada no coro alto da Igreja do Instituto de São Pedro de Alcântara. Gostei bastante, acho este o local mais adequeado para este tipo de música. A reverberação natural da igreja faz com que as várias vozes se combinem e as várias linhas se tornem claras mantendo sempre uma noção do todo vocal. Esta peça tem um caractér mais polifónico do que a que encerrou o programa, e que por isso foi cantada da zona do altar mor.
Lucente Stella foi bem interpretada por
António Carrilho do púlpito. É uma peça típica da Ars Nova, cheia de invenção. Gostei.
A seguir veio a peça que eu já conhecia, e aquela, para além da de Hirose, em relação à qual eu tinha uma maior expectativa.
Foi bem interpretada pelo Olisipo, com
Armando Possante muitíssimo bem no canto chão. Contudo houve algo que me desagradou bastante. Esta peça é um organum, é os primórdios da polifonia, ainda não concebida como várias vozes verticalmente alinhadas, mas como um tema que é colocado na voz inferior com "ornamentações" nas vozes superiores. O texto é cantado prolongando as sílabas e utilizando os próprios fonemas para introduzir mudanças na música. Assim a peça "Viderunt Omnes" começa com um longuíssimo "Vi", que depois é ornamentado com arte, até chegar ao "de". Por vezes todas vozes fazem a parte de canto chão em uníssono. É belíssimo, a sua simplicidade e a sua expressividade. As vozes inferiores criam uma textura — fazem um pedal — sobre a qual as vozes superiores cantam "Viderunt" em longos melismas. Sucede que neste concerto essa textura nas vozes inferiores foi feito com um órgão electrónico e não com vozes humanas. O efeito das várias tessituras com ritmos diferentes a cantaram coisas diferentes: o efeito polifónico, esteve quase ausente. Não obstante a interpretação do Olisipo ter sido
muito boa. Percebo também que a utilização de cantores para fazer o pedal nas vozes inferiores requer um número maior de cantores. Para se conseguir manter o pedal durante vários minutos como a peça requer. Com um dispositivo de 6 cantores: 3 masculinos e 3 femininos, como o Olisipo apresentou em São Roque isso é
impossível.
Desconheço o que motivou esta escolha. Terá sido uma questão de orçamento para o concerto que impossibilitou a utilização de mais cantores? Terá sido uma opção do próprio Olisipo? Não sei. O que sei é que o bom trabalho feito ficou desamparado pela utilização do órgão electrónico. Não creio que os músicos gostem de sabotar o seu próprio trabalho.
A peça de Hirose foi para mim uma boa surpresa. Gostei do conceito da utilização da voz do próprio flautista que sopra cantando. Agradou-me imenso e foi
muito bem interpretada por António Carrilho na flauta de bisel.
A última peça do concerto da autoria de Ivan Moody tem um caractér menos polifónico que a primeira. Novamente
Armando Possante esteve muito bem no canto chão, tornando o texto muito claro e dando enfâse no sítio certo. O coro comenta e ornamenta o texto cantado.
Uma palavra para a organização da SCML. Estavam meia dúzia de gatos no concerto. Que começou depois da hora prevista. A divulgação é menos que má. Nem um cartaz, nem uma faixa, nada assinala o evento no exterior do Instituto de São Pedro de Alcântara, ou da Igreja de São Roque. Ainda por cima numa zona tão frequentada por turistas. Acresce que a Igreja é belíssima e está muitíssimo bem conservada, para além de ter uma boa acústica. Donde o concerto foi uma oportunidade não só para deliciar os ouvidos como os olhos.
Com uma divulgação tão débil, que parece quase ter "vergonha" do evento, não é de estranhar uma tão fraca afluência. A má divulgação é profecia que se cumpre a si própria. E se a iniciativa tem restrições a nível orçamental, não é poupando esforços na divulgação que se pode inverter essa situação de restrições. É sendo saudavelmente agressivo.
Ainda a referir a presença de tias que como é habitual se entretêm a desembrulhar rebuçados ruidosamente durante o concerto, desrespeitando o público e os músicos. Ditto para os geriátricos que alegremente mexem em sacos ou estão a dormir durante o concerto.
Em suma um
bom concerto que poderia ter sido
muito bom caso tivesse outras condições envolventes, nomeadamente a utilização de cantores para fazerem os pedais no organum de Perotin.