prémio lopes-graça em cascais: habemos discantor
appa writes on 05.Dec.04 at 06h30
Assisti a passada sexta-feira a um muito bom concerto em Cascais, a propósito da entrega do prémio Lopes-Graça que premeia jovens compositores portugueses.

O premiado foi Vasco Mendonça com a obra "Plurabelle". Menções honrosas para "Não Saber” de Manuel João Salvador Durão e “Chiarezza Lontana, Respiro affannoso” de César de Oliveira.

O Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras sob a direcção do maestro Nikolay Lalov interpretou as obras:

A primeira boa coisa neste concerto foi constatar que o belo auditório do Centro Cultural de Cascais estava quase cheio. Um público maioritariamente jovem que foi lá para ouvir a música composta hoje, ou, no caso de Lopes-Graça, há uns tempos atrás.

Conheço mal a obra de Lopes-Graça. O que conheço não me cativa por aí além. Concedo que Lopes-Graça tenha sido muito importante por ter na altura rechaçado a música oficial e ter trazido para cá coisas novas que o regime da altura não deixava transpirarem de lá para cá.

Concedo também que o seu trabalho de musicólogo seja essencial para a ideia que hoje se tem da riqueza da música portuguesa, seja ela erudita ou popular.

Igualmente concedo que Lopes-Graça tenha sido fundamental como pedagogo e mestre de uma série de compositores de hoje. E com isso marcou indelévelmente a música portuguesa.

Contudo, o que dele ouvi até hoje parece-me pouco àgil. Há uma certa gravidade que me desgrada. A gravidade na Arte é algo que me desgosta. É por isso que tenho uma relação de uma certa distância com Wagner. Por um lado reconheço a sua genialidade como criador de sons, por outro desagrada-me profundamente o "peso" das suas obras. Como se uma obra tivesse que ser grave e pesada para ser profunda. É um equívoco que os românticos instalaram e que se mantém.

Dito isto, devo dizer que não me desgradou a peça de Lopes-Graça que abriu o programa, longe disso. Mas também esteve longe de me cativar. Achei-a muito grave. Desconheço o contexto em que a peça surgiu. Não consigo perceber se Lopes-Graça tem uma visão pessimista da vida, e por isso pintou a "Canção para uma Criança que vai Nascer" com tonalidades escuras. Será?

Seguiu-se a peça de Sérgio Azevedo. Foi um bom contraponto à peça de Lopes-Graça. É uma peça dançável, com citações de vários períodos da história da música. Gostei da ideia de o solista e a orquestra estarem ora de acordo, ora de costas voltadas. Há desfasamentos rítmicos e temporais. A flauta dá um tema que a orquestra toma mais atrás, quando a flauta já está a fazer outras coisas. A orquestra retoma o tema mas fá-lo de maneira diferente de flauta. Com uma boa exploração dos timbres dos vários instrumentos de cordas, utilizando-o para criar várias linhas. Surgindo algumas dissonâncias. Uma peça muito divertida e que explora muito bem os timbres dos instrumentos e os desfasamentos rítmicos.

António Carrilho esteve muito bem, fazendo a orquestra "sofrer" com a sua forma energética e viva de tocar.

Por fim a peça premiada: Plurabelle de Vasco Mendonça. Foi a peça que mais gostei do concerto. Gostei da utilização do silêncio, das dissonâncias, das texturas utilizadas. Tem um aspecto experimental que me agrada.

Desconheço as outras peças que concorreram, mas sem dúvida que a peça que ganhou tem qualidade. Foi por isso uma boa escolha.

Uma palavra para a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras. O que lá ouvi agradou-me. O nível de exigência que o seu director artístico: o maestro Nikolay Lalov instalou ouve-se. Tocou bastante bem. Desconheço qual o nível de actividade da orquestra e foi a primeira vez que a ouvi. Arrisco que não seja muito, donde mais notável é o seu bom desempenho.

Uma palavra também para a Câmara de Cascais que instituíu este prémio e com isso dá a oportunidade dos jovens compositores darem a conhecer um pouco do seu trabalho ao público. Pena foi que não se pudessem ter ouvido também as obras premiadas com menções honrosas.

Das várias oportunidades que já tive de ouvir música de autores portugueses contemporâneos é indiscutível a sua qualidade. O que falta são oportunidades para os compositores a darem a conhecer. Falta uma estratégia. Instituições públicas como a Antena 2 demitem-se desta função, apostando em vez disso numa estratégia de imbecilização do público. Estratégia essa que consumará o seu estiolar como estação de rádio até se tornar um resíduo Hertziano que só cativa um público geriátrico para quem o grande desígnio é ouvir conversa fiada — para "combater" a solidão — e ópera romântica italiana até à náusea.

Estando o rádio posta de parte resta a organização de concertos. Se calhar não esgotam, se calhar não são os mais fáceis. Mas só se pode crescer fazendo o que é "difícil". Um ouvido que só ouve a papa pré-digerida que passa por aí como música fica irremediavelmente atrofiado. Aplica-se aqui o epigrama:

Use it or lose it

Há que correr riscos e ser tenaz. Sem isso nada se consegue. A prazo as coisas acabam por ter o seu retorno. É preciso que iniciativas como o prémio Lopes-Graça se multipliquem como cogumelos.

Na minhas modestas possibilidades disponibilizo-me para divulgar aqui a boa música dos compositores portugueses. Por exemplo o concerto foi gravado. Como aceder a essa gravação? Gostaria de colocar aqui um extracto, se os autores não virem nisso inconveniente.

À Câmara de Cascais, à orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, e acima de tudo aos compositores:

Keep up the good work.