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Quatuor pour la fin du temps no Conservatório Nacional: louange à l´Art
quatuor pour la fin du temps no conservatório nacional: louange à l´art
appa writes on 23.Jan.05 at 07h41
Integrado na série de concertos Em Busca de um Salão Perdido assisti a um muito bom concerto a passada quarta-feira dia 19 de Janeiro.

Foi interpretado o Quatuor de la Fin du Temps (1941) de Olivier Messiaen (1908-1992).



Este foi o último concerto da 1ª temporada que decorreu o ano passado. Os proveitos realizados destinam-se à atribuição de bolsas de estudo no estrangeiro a alunos da escola de música do Conservatório Nacional. A contribuição é voluntária, apela-se à generosidade.

Os músicos foram:

António Wagner Diniz foi o recitante, e João Andrade o responsável pela iluminação.

Messiaen compôs esta peça durante o seu cativeiro num campo de prisioneiros de guerra. Não é uma peça pessimista, mas antes afirmativa. Uma forma de Messiaen e os seus companheiros de cativeiro testarem a sua força e sairem com acrescido vigor.

É o segundo concerto a que vou, e o segundo bom concerto. A acústica ajuda. Confesso que estou viciado na acústica. Para quê ficar em casa a ouvir discos se há salas como esta, em que se ouve tudo com uma clareza assombrosa. Para além disso o público porta-se bem. Ao invés de certas salas "Olá" em que o evento social é o que importa e o aspecto artístico é acessório.

Não conheço em Lisboa nenhuma sala tão boa a nível acústico como esta. Urge recuperá-la. Faz pensar nos rios de $ gastos em estádios de bola o ano passado, e que agora estão às moscas, e que custa milhões manter. Mas quem sou eu para interrogar os desígnios dos timoneiros da nau lusitana? Adiante.

A sala estava quase cheia. Isto apesar da degradação que a apoquenta.

Destaque para as interpretações de Luís Gomes no clarinete e de Rui Pinheiro no piano. Muito certos, conseguindo invocar na perfeição o ambiente místico-religioso que permeia a peça de Messiaen.

O terceiro andamento é para clarinete solo: Abîme des oiseaux. A dualidade entre o abismo que é Tempo e os pássaros que voam da superfície para os céus, donde vem a luz. Uma excelente interpretação de Luís Gomes. Os pássaros são representados por grupos de notas com um carácter jubilatório por oposição às notas mais sombrias evocativas do Tempo. Neste andamento e no seguinte os músicos — violino, violoncelo & clarinete tocaram na zona de entrada do balção. Utilizando a espacialidade como um elemento da sua interpretação.

A seguir ao Scherzo do quarto andamento surge um dos mais belos andamentos, para o piano e o violoncelo: Louange à l´Eternité de Jésus. É impossível não sentir o misterioso que esta peça convoca. O que é misterioso apenas nos é revelado quando ele "choca" com a realidade. É aí que ele surge. A verdadeira Arte explora sempre este embate, girando em torno das questões metafísicas. As questões ligadas ao social, à dita intervenção social, são apenas débeis, embora ruidosos, estalidos no fogo de artifício silencioso que o homem vem realizando por via da Arte, e que alegram a sua vida.

Considero que um "artista" que se diz um interventor social, está a confessar a sua incapacidade para compreender as verdadeiras questões que a Arte trata, e por isso se contenta em elaborar em epifenómenos circunstanciais, que o tempo se encarregará de sepultar no cemitério do esquecimento.

Catherine Strinckx titubeou algures a meio da peça. Golpes de arco fora do tempo, a perda da direcção da música. Valeu a solidez do seu colega no piano que a ajudou a sair deste embaraço.

Erros que sucedem, jamais está em causa o empenho de todos os músicos. A entrega na interpretação da peça era evidente.

A peça termina com a escalada que o violino empurrado pelo piano faz até ao extremo agudo da sua tessitura. Uma boa interpretação de Luís Cunha.

Numa sala plenamente iluminada uma menina vestida de branco irrompe no palco com uma vela na mão. Sopra e as luzes apagam-se restando apenas as das estantes dos músicos em palco — violinista e pianista. A seguir acende a vela e eleva-a no ar. Um momento de silêncio entre o final da música e a luz flamejante da vela. Os aplausos arrancaram a medo, intimidados pelo especial do momento.

A nota dissonante, das que não estão na partitura é claro, foi a leitura que António Wagner Diniz fez do texto que Messiaen escreve e das escrituras. Começou muito mal com uma citação do livro do Apocalipse de São João. Leu como se fosse um artigo de jornal: sem pausas, sem variações de ritmo e tessitura, sem medir o peso de cada sílaba, sem perceber como articular os fonemas de modo a ser mais expressivo e criar o ambiente apropriado à peça. Melhorou nas intervenções seguintes. Mas nunca cativou. Uma leitura demasiado fria, demasiado analítica: un peu Messiaen chez Wittgenstein.

Uma nota para o responsável pela iluminação João Andrade. Uma boa compreensão do carácter de cada andamento. A iluminação foi o 5º elemento do quarteto. Gostei. Em especial do foco em forma de cruz projectado durante o 5º andamento.

Este concerto é mais uma prova de que para fazer bons concertos o que é preciso é empenho. Sem dúvida que a qualidade técnica não pode faltar, mas nunca chega. Entrega e brio são duas coisas que senti nos 2 concertos a que fui no conservatório.

Desconheço se estes músicos estão habituados a trabalhar juntos em agrupamentos de câmara. Mas do que lá ouvi parece-me que deveriam equacionar tal hipótese.

Em suma um muito bom concerto. Um ambiente verdadeiramente melómano e uma acústica sublime: um elogio à arte de Messiaen.

Keep up the good work.
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> louange à la critique
> by Dr Sonot One on 06.Feb.05 at 05h42
Tenho lido os seus comentários, com os quais tenho discordado mais frequentemente que o inverso.
Foi um comentário seu ao último andamento do "Quatuor ..." que me impeliu inelutávelmente a escrever.
Na minha opinião tratou-se, sem margem para dúvidas, do pior momento musical do concerto. Quase irreconhecível; o tempo para aí ao dobro da velocidade do indicado pelo compositor. Não que o respeito pelos tempi tenha que ser estrito; as variações impõem-se com frequência, muitas vezes por razões relacionadas com a acústica da sala, por exemplo - o que não foi o caso - mas sempre com o intuito de servir o "espírito" da música. O que se passou, a esse nível, com o último andamento do "Quatuor ..." foi a desfiguração quase absoluta da música, tal como consta na partitura e por comparação com todas as versões que já escutei (ao vivo e em cd). Quanto às razões que a isso terão conduzido, julgo tratar-se de insuficiência técnica por parte do violinista, que aliás foi patente noutros momentos; ainda assim, pior que a insuficiência técnica, foi o violinista não ter percebido o que estava a fazer à música que devia defender, por incompreenção total da música em questão.Aliás, essa falta de compreensão da musica, ficou patente logo no primeiro andamento, através do recurso sistemático por parte do violinista à verificação da afinação da nota que se preparava para tocar através de um pizzicato; essa prática, que julgo frequente em orquestra - onde, no meio da textura orquestral, passa despercebida - é inaceitável em música de câmara, por que, e só por que se ouve.
Musicalmente foi um bom espectáculo; a parte cénica teve momentos de extremo mau gosto, com destaque para a entrada em cena no final do já de si mal tratado último andamento de um anjinho de vela em riste. Gostos.
Para mais tarde, guardo uma pequena questão a propósito do primeiro concerto do workshop para jovens compositores.
Saudações
 
> disputar & discordar
> by appa on 06.Feb.05 at 07h15
Caro Dr. Sonot One,

Ainda bem que discorda. Preocupava-me se concorda-se com tudo o que escrevo. A reacção que cada um tem à música varia. Cada qual foca-se nos aspectos que mais o interessam.

Para mim, julgo as coisas sempre como um todo. É como um todo que elas foram pensadas, e é como um todo que eu as recebo.

Quanto à questão do pizzicato de que fala. Lembro-me que de facto o violinista o fez durante o primeiro andamento. Mas foi uma coisa tão breve, e tão ligeira que não o ouvi. Admito que alguém o possa ter ouvido. Como sabe o nosso ouvido é selectivo, o cérebro filtra o que lhe mandamos filtrar.

É verdade que não me cativa por aí além a sonoridade que o violinista extraíu do instrumento. Mas tampouco acho que tenha sido tão mau quanto diz. Para mim o melhor elemento foi o clarinetista, com o pianista a segui-lo de perto.

Se é possível uma concepção mais mística da obra? Concerteza. É possível para qualquer obra. Exemplo de violino. As sonatas do Rosário por Reinhard Goebel e por Alice Pierot. Duas concepções em oposição de fase da obra. A de Goebel "alucinada", com o vigor que este músico habitualmente imprime à música que toca. A outra repousada, mais meditativa. Qual delas serve melhor o propósito que Biber tinha em mente?

Eu não sei. Depende do gosto. E ao contrário que um lugar comum que ainda por aí a saltarinhar mantém, os gostos disputam-se.Toda a vida não é mais que uma disputa de gostos.

Como alguém disse, o gosto é aquela coisa que é ao mesmo tempo, balança, pesos e escala.

Desconheço se já leu o que penso da crítica. Senão o fez, e se isso lhe aprouver pode fazê-lo aqui. Acresce que estes mesmos músicos se vão apresentar no CCB no BoxMúsica. Donde, as pessoas podem lá ir e formar a sua própria opinião.

Espero que torne regular as suas intervenções por aqui.

António Almeida