udite amanti e o som das lágrimas em mafra: habemos gambista
appa writes on 11.Oct.04 at 16h01
Assisti ontem a um muito bom concerto pelo agrupamento Udite Amanti integrado no 8º Festival de Mafra.

O agrupamento Udite Amanti são:

O tema do concerto é a dor, o sofrimento, a tragédia. O programa intitula-se "O Som das Lágrimas", e é o seguinte:


O que mais me impressionou neste concerto foi a qualidade da gambista Sofia Diniz. Já antes tinha tido oportunidade de ouvir estas músicas, mas na altura as condições não me permitiram ter uma impressão bem definida da qualidade da violoncelista e gambista. Não foi esse o caso ontem.

Gostei imenso da sua prestação. O basse de viole é talvez o meu instrumento favorito, e na obra dos compositores franceses do séc. XVII e XVIII e nos ingleses do séc. XVII, tem o seu apogeu. Tem uma riqueza expressiva de que o violoncelo não suspeita. Contudo é um instrumento difícil, todos os defeitos do intérprete se tornam visíveis se não for muito bem tocada. O essencial é a sonoridade que o gambista consegue extrair do instrumento. Sem uma sonoridade rica, a viola da gamba soa pior que um violoncelo.

O nec plus ultra da interpretação das obras dos violistas franceses do séc. XVII — Forqueray, Marais, &c — é para mim as gravações que Jordi Savall fez para a Astrée nos finais dos anos 70, início dos 80.

Infelizmente era demasiado novo na altura para poder ter tido o privilégio de ouvir Jordi Savall ao vivo nessa época. Contudo, o que ouço nos discos, registos quase todos da responsabilidade de Michel Bernstein, que mais tarde fundaria a Arcana. O som cheio, rico, requintado que se ouve, numa pompe fúnebre de Couperin, por exemplo é algo de sublime.

Outra questão essencial é a articulação. Há um tempo certo para poder utilizar a bela ressonância da caixa da viola da gamba, que dá um som cheio, rico.

Sofia Diniz extraíu um som rico da viola da gamba. Gostei de a ouvir em todas as peças que interveio, mas para mim o melhor foi o simples acorde que tocou na peça de Merula. Não será o mais difícil de um ponto de vista estritamente técnico. O tombeau de M. Sainte-Colombe leva aí a palmatória. Mas a acção dela foi estruturante na obra, deu uma clareza e uma limpidez à interpretação que auxiliou a sua colega soprano. Claro que teve a ajuda da cravista nisso, mas foi ela que lançou a música, e marcou a toada.

Gostei mais de ouvir a interpretação desta bela canção de Merula ontem em Mafra do que à uns meses atrás em Espinho numa apresentação do Le Poème Harmonique. E a razão essencial é para mim a clareza que as músicas ontem deram à peça, coisa que não ouvi em Espinho.

A peça em que foi solista, o tombeau de M. Sainte-Colombe de Marin Marais, foi muito bem tocada, mas a sonoridade da viola da gamba foi algo esmagada pelo cravo. Gostei mais de ouvir a viola da gamba de lado, parecia-me haver menos "interferência" entre os dois instrumentos. Saúdo a iniciativa de a gambista se colocar de frente para o público na "sua" peça, mas um posicionamento não perpendicular à plateia do cravo, será melhor, arrisco.

Fora disso a sonoridade estava bastante equilibrada, com a excelente acústica da enfermaria do Convento de Mafra a ajudar. Uma envolvente bela para um bom concerto.

A soprano Orlanda Isidro esteve bem. Tal como anteriormente escrevi acho-a uma boa cantante que tem imenso potencial, e que deve arriscar mais. Julgo ter percebido algo nesse sentido, teve uma postura menos "rígida" ontem do que na anterior ocasião. Há simples movimentos faciais e gestos das mãos que adicionam muito ao que está a ser cantado. Tem uma musicalidade intrínseca que torna o seu cantar sempre agradável, para além do timbre da sua voz, é claro.

A violinista Iskrena Yordanova esteve muito bem, achei na outra ocasião que ela tem sempre uma certa alegria a tocar que agrada e faz a música viver. Ontem confirmei-o.

A cravista e directora do grupo Ana Mafalda esteve muito bem. Tem sem dúvida grande responsabilidade no bom desempenho do grupo, e tem uma forma de tocar bastante solta e enérgica. Gostei bastante de a ouvir na peça de Froberger. Froberger ou Frescobaldi, para dar 2 exemplos, são compositores cuja música é bela, mas que exige muito dos intérpretes, se estes não forem capazes, a sua música torna-se enfadonha: sêca.

Ontem Ana Mafalda Castro fez jus à bela música de Froberger. Houve um momento no fim em que uma nota solta quase que suspendeu o tempo.

Sobre a soprano Magna Ferreira não tenho muito a acrescentar em relação em que então disse. Não é talhada para este reportório. Esforça-se, é visível e audível, e tem um timbre que não é desagradável, mas de facto não consegue. Exemplo disso foi a bela cantata de Montèclair: "La Mort de Didon". Começou melhor do que acabou. Pelo meio percebi algumas palavras, nomeadamente um "hélas, hélas, hélas". De facto hélas, esta soprano não tem apetência para este tipo de repertório.

No lamento de Carissimi, as suas investidas no volume e no extremo agudo tornaram a audição dolorosa. Sei bem que o local é propício a isso.

Penso também que ela própria percebe que não consegue atingir o nível das restantes colegas e acaba por interiorizar um certo acabrunhamento que torna a coisa pior.

Este agrupamento tem imenso potencial, não só no plano nacional, mas também no plano internacional, mas só se fizer uma opção diferente relativamente às cantoras, concretamente se se limitar a uma única soprano ou se trocar a soprano Magna Ferreira por outra mais apta para este género de música.

A decisão é obviamente das músicas, nomeadamente da directora, e temo que seja uma decisão essencial para o futuro do grupo. Há um salto quântico que pode ser dado em termos da sua afirmação artística dentro e fora de Portugal, mas para isso têm que estar reunidas as condições certas.

Em suma um muito bom concerto que recomendo e que só não posso classificar como excelente, por via da prestação da soprano Magna Ferreira, que é a nota dissonante num agrupamento de grande nível.

Uma última palavra para o texto das peças cantadas. Ter uma tradução é bom, mas é melhor ainda se se tiver o texto na língua original em paralelo. Caso contrário a utilidade do texto fornecido é diminuta. Um aspecto que deve ser corrigido nas próximas apresentações, parece-me.

Keep up the good work.
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> magna ferreira
> by bilix2001@yahoo.com on 11.Nov.04 at 22h13
Caro appa pretendo apenas perguntar-lhe quantas vezes ouviu cantar o soprano Magna Ferreira para poder dizer com tanta certeza que não é "talhada" para este tipo de repertório? Tem a certeza que conheçe assim tão bem este mesmo repertório e o tipo de voz que o deve ou não cantar? Faz tanta alusão a uma coisa tão subjectiva como é o tipo de voz que deve ou não cantar determinado tipo de música e não reparou na fraca pronúncia de françês? Tem a certeza que esteve com atenção ao concerto? Ou apenas se dedicou a ouvir as vozes e apenas nisso baseia a sua intervenção? Como diz um certo senhor que dirige um certo coro "...mas vozes bonitas também as há na apanha da fruta!" são é infelizmente poucas as que sabem de facto cantar.
Cordiais saudações.
Alexandre Amorim
 
> a subjectividade e a objectividade
> by appa on 12.Nov.04 at 20h17
Caro Alexandre,

Ouvi-a cantar 2 vezes. Acho que é uma amostra razoável das capacidades de uma cantora. Atendendo a que estamos a falar de concertos distanciados no tempo e no espaço. Acústicas diferentes, envolventes diferentes. O que se manteve no essencial foi o repertório. A inclusão de uma obra do Barroco francês foi a novidade. Ora se há Barroco onde a palavra tem um papel essencial, isto já depois de uma certa cultura lírica ter surgido em Itália, é o francês.

Nada tem a ver com ser uma voz "bonita", para utilizar o seu termo, ou feia. A questão é que não
consigo perceber quase nada do que está a ser cantado. Nem sequer cheguei à questão da pronúncia.

Isso é uma questão que vem depois. No mesmo dia que ouvi a Magna Ferreira ouvi o Marco Beasley. Cantou uma peça de Purcell extra programa. A pronúncia dele de inglês está longe de ser perfeita, e isso obviamente reflecte-se na apreciação global do seu cantar. Mas percebi as palavras, mesmo sendo uma pronúncia menos boa. Já o italiano de Beasley é magnífico. Mas a soprano em causa tem outras questões para além da pronúncia. Onde é que começa a má articulação do texto e acaba a má pronúncia? Não sei?

Indico-lhe a discussão que mantive com o Pedro Sousa Silva a este propósito. Desenvolvi aí o que penso desta soprano neste repertório.

Caso não tenha reparado se seguir o link do autor do comentário ou dos artigos ficará a saber o meu nome. Não há necessidade de me tratar por appa, como o fez, embora não me desgoste. Longe disso.