music
Se na lusa pátria a canícula rima com tédio e falta de imaginação, paragens há onde tal rima com diferente.
O
France Musiques tem estado a apresentar desde há um mês uma série de programas intituladas
Suivez le Thème. Nessas emissões diárias são propostas coisas que não cabem no normal ritmo semanal de um programa de rádio. Assim no início foi a história do dito movimento da Música Antiga. Coisas boas, desde uma aluna de
Clara Schumann a tocar um Scarlatti em piano digno de fazer corar uns quantos pianistas "modernos" que tocam o Domenico como uma xaropada romântica, até a uma gravação fabulosa de
Aline Zylberajch numa cópia dos pianofortes
Cristofori que existem no
El Escorial, e os quais estariam na mente de Domenico quando seguiu Maria Bárbara de Lisboa para Madrid e copiosamente sonatas escreveu.
Já se ouviu, faz duas semanas, a música das Rainhas da Europa, destaque para a
Isabel I de Inglaterra com o fervilhar de actividade em torno da sublime obra de Shakespeare e dos Dowlands, Thallis e outros.
Esta semana o tema é
Musique de princes, princes de la musique. Desde
Thibaud de Champagne (1201-1253), passando por
Louis XIII (1601-1643) até
Guillaume IX d’Acquitaine (1071-1127). Poeta, compositor, livre pensador, duas vezes excomungado pelo papa. O tema são os princípes compositores. Adivinham-se visitas a Inglaterra para ouvir a música de
Henry VIII (1491-1547). Seria simpático ter uma visita por aqui a propósito de
D. Dinis (1261-1325), por exemplo. Mas dada a muita exígua discografia e concomitante invisibilidade nos mercados internacionais não vale a pena vã esperança alimentar. Tanto mais que os desgovernantes da pátria lusa preferem propor a "marca de Portugal" — como eles pomposamente, na sua beata vacuidade designam a cultura lusa — em jogadores de bola e estádios elefantes brancos que custam milhões ao anónimo contribuinte. Sabe-se já — vide uma qualquer ditadura à escolha — que quanto mais ignorantes as pessoas mais se podem manipular a bel-prazer das cliques partidárias na sua voracidade be$tial.
As semanas têm-se alternado entre Música Antiga e Romântica. Tenho mantido um sábio jejum das xaropadas decadentes. Da música para burgueses entediados que querem ser violados pela arte.
Vale a pena ouvir:
aqui.
Os arquivos contem só o programa do dia anterior.