music
Abomino os Centros Comerciais, sejam eles de
kultura, ou de outra coisa qualquer. Desagrada-me o ar blasé de uma FNAC, em que se arruma a música clássica a um canto envergonhado. Desagrada-me ter que aturar a música da
berra aos berros, ter que estar numa fila para poder ouvir um disco com potencial de me interessar. Desagrada-me o ar de cultura descartável que permeia estes locais. Para não falar das turbas que sobre eles se precipitam, e que falam forte e longamente ao seu telemóvel para perguntar: "o que devo comprar para oferecer a X", ou a resumir o último episódio da novela da têvê.
Desagrada-me o aleatório na escolha dos discos apresentados. Desagrada-me a ignorância beata dos empregados sobre o que vendem, e que não seja a habitual "música alternativa" ou "the top of the pops" do instante.
Mas tal como a aldeia do Astérix, ainda há locais que resistem a essas invasões. A
VGM Música é um desses locais. É uma discoteca que é também um local de encontro, com músicas e melómanos.
Aprazei um destes Sábados de Agosto uma excursão lá, para indagar. Gostei logo do que lá vi. A sua oferta é simétrica à das FNACs e similares. Música contemporânea, medieval, compositores e intérpretes que desconhecia.
Eu, e quem me acompanhava estivemos lá cerca de três horas a ouvir discos, a falar sobre música. A alma da loja é
Tomás de Oliveira Marques que depois de anos numa exígua loja no Príncipe Real migrou recentemente para instalações arejadas na
Rua Viriato, em frente ao Picoas Plaza.
Rapidamente as áreas de interesse de cada um de nós ficaram definidas. Apresentaram-se múltiplas sugestões. Dos que lá estavam, talvez fosse o mais difícil de convencer. E logo sobre discos de Ars Subtilior. Pergunta-me o Tomás: Gosta de Ars Subtilior e da Mala Punica não é? Digo que sim, claro.
Escolhe um disco de uma editora que desconhecia:
Tactus. Concretamente um intitulado
Regina Pretiosa pelo Ensemble
L'Homme Armé — título de uma canção célebre da Renascença e de duas missas de Josquin Desprez. É um disco dedicado à música para o culto Mariano no Trecento Florentino. Pelo meio tem várias peças de Subtilitas italiana, duas delas da autoria de
Paolo da Firenze.
No conjunto vocal reconheço a voz de
Alessandro Carmignani, contra-tenor da Mala Punica. A interpretação é bastante boa,
quase ao nível da Mala Punica, com as várias vozes nas partes isorritimicas perfeitamente perceptíveis. Faltam os rasgos de génio e a ousadia de Pedro Memelsdorff.
Falta uma concepção mais autónoma de cada uma das vozes, faltam os silêncios que sublinham a expressividade desta música. Não deixa contudo de ser uma óptima interpretação de um repertório, que é talvez o mais difícil da história de música Ocidental.
Para quem como eu, não suporta ouvir este repertório a não ser pela Mala Punica, foi uma descoberta
pretiosa, a que fiz naquela tarde de Sábado.
O disco combina peças típicas da Ars Nova florentina com peças da subtilitas italiana. Os
Gaudeamus Omnes a 2 vozes e o
Benedicamus Dominus a 3 vozes de Paolo da Firenze são sublimes. Bem como o
Kyrie em Rondeau a 3 vozes de compositor anónimo do séc. XIV. O disco consegue a difícil proeza de equilibrar a subtilitas com a Ars Nova. Ouve-se com muito prazer.
É assim: sou agradavelmente surpreendido pela minha excursão à VGM. Não só trouxe um disco que me
encanta, como na conversa fiquei a conhecer compositores e intérpretes que desconhecia.
Há a alegria da música, e há os discos. Na VGM estão de mão dada. Vale a pena lá ir, mesmo se não se está a pensar comprar nada. É quase certo que se volta lá mais rico. A conhecer outras músicas e intérpretes.
A VGM representa uma série de pequenas editoras independentes. A lista completa está
aqui, bem como o endereço da loja.
Para quem gosta de música recomendo uma ida à VGM, ali para os lados da Maternidade Alfredo da Costa, em frente ao Picoas Plaza. Eu fiquei um habitual, pois volto lá sempre que me
apetece.
Boas audições e conversas.