vocal ensemble em s. vicente de fora: polifonia de uma nota só
music
Assisti o passado Sábado dia
7 de Janeiro a um concerto
medíocre pelo
Vocal Ensemble que se apresentou na igreja de
São Vicente de Fora, sob a direcção de
Vasco Negreiros, com motetes e a Missa Pro Defunctis de
Frei Manuel Cardoso (1566-1650). Ocasião também para o lançamento de um CD triplo com obra inéditas em CD do mesmo autor pela editora
Arte Mágica.
As peças vocais foram entremeadas com obras para órgão interpretadas pelo organista
João Vaz no magnífico instrumento de São Vicente de Fora.
O alinhamento do concerto foi:
- Diogo da Conceição: Batalha do 5º tom
- Frei Manuel Cardoso (1566-1650):
- Asperges Me
- Amen Dico Vobis
- Omnis Vallis Implebitur
- Anon: fantasia do 5º tom — livro de órgão do convento de Santa Maria de Belém
- Frei Manuel Cardoso:
- Cum Ieiunatis
- Accepit Iesus Panes
- Diogo da Conceição: meio registo do 2º tom
- Frei Manuel Cardoso:
- Vau et Egressus est est
- Tristis est anima mea
- Anon: verso do 6º tom
- Frei Manuel Cardoso: Introitus da Missa Pro Defunctis
- Manuel Rodrigues Coelho: primeiro Kyrio do sexto tom por F Fa Ut
- Frei Manuel Cardoso: Kyrie Eleison da Missa Pro Defunctis
- Manuel Rodrigues Coelho: segundo Kyrio do sexto tom por F Fa Ut
- Frei Manuel Cardoso: Christe Eleison da Missa Pro Defunctis
- Manuel Rodrigues Coelho: terceiro Kyrio do sexto tom por F Fa Ut
- Frei Manuel Cardoso: Christe Eleison da Missa Pro Defunctis
- Manuel Rodrigues Coelho: quarto Kyrio do sexto tom por F Fa Ut
- Frei Manuel Cardoso: Kyrie Eleison da Missa Pro Defunctis
- Manuel Rodrigues Coelho: quinto Kyrio do sexto tom por F Fa Ut
- Frei Manuel Cardoso: Graduale da Missa Pro Defunctis
- Anon: verso de 6º tom &mdash livro de órgão de Frei Roque da Conceição
- Frei Manuel Cardoso: da Missa Pro Defunctis
- Offertorium
- Sanctus
- Agnus Dei
- Communio
- Domingos de São José: obra de 5º tom
Não há muito para dizer. Achei o concerto
entediante. O pré-concerto consistiu numa arenga enfadonha por um senhor que tomou o púlpito, e que não teve a gentileza de se apresentar, mas que deduzo ser o produtor do disco, ligado portanto à editora,
Arte Mágica, que eu desconhecia até então. Mau tom, o facto de ter falado em "Excelências", "Convidados", &c, &c, &c, esquecendo-se de falar no público anónimo: a ralé; entre a qual me incluo.
Achei muito estardalhaço para pouco, ou quase nada. Tanta presunção, e foi isso que me desagradou mais, o tom quase absoluto com que o CD foi apresentado, como se fosse algo de verdadeiramente memorável. Depois da arenga estava à espera de qualquer coisa de excelente. Mas, mas, depressa percebi que dali não ia sair um paquiderme mais um roedor pequenito e muito assustado com o barulho.
Vasco Negreiros é
mau no cantochão. Para além de problemas de afinação, não consegue transmitir a magia da palavra. Isto é não explora a musicalidade do latim, e não a usa para melhor transmitir a palavra. Ir para além de um simples dizer coloquial, tentar revelar o
Deus absconditus nas palavras. O som das sílabas como repositórios de sensações, de ideias. Corta abruptamente as sílabas. Parece-me ter pouca sensibilidade para a musicalidade das palavras e do latim.
Esta falta de sensibilidade para o som das palavras, e como a música resulta naturalmente delas, voltou-se a fazer sentir no Introitus do Requiem. O
Requiem Aeternam cantado por uma soprano não explorou o som das palavras. O "am" de Aeternam saíu de forma abrupta, com um corte brutal no som do aaammm. Para mim este som dá enfâse ao facto de o(s) defuntos terem entrado no seu
repouso eterno. Adiante.
Quanto à abordagem da polifonia propriamente dita. Achei enfadonho. Um som "bonitinho", mas sem chama, sem alma. Falta de clareza das várias linhas. Falta de capacidade de explorar as articulações das várias vozes com base nas palavras. Não consegui perceber quase nada do que foi cantado. E não aceito o argumento tíbio de que a polifonia é mesmo assim. O texto não é para se perceber. Para isso há monodia. Não, não e não. A polifonia é uma forma de explorar o significado do texto a ser cantado utilizando as articulações entre as várias vozes . É uma potenciação daquilo que a monodia encerra. Sim pode haver um "sacrifício" da compreensão imediata da palavra em prol de uma significação mais profunda que curto-circuita a nossa capacidade puramente analítica, que está para lá da simples linguagem coloquial. Mesmo para lá da semântica. Nada do género me foi dado ouvir neste concerto.
Recordo o
sublime concerto dado pelo agrupamento
Jachet de Mantoue. Esse sim um concerto memorável em que a Missa sobre o madrigal "Anchor che col partire" do compositor
Jachet de Mantoue (14831559) foi um momento único. Um daqueles momentos de um transe profundo. A clareza das linhas, a clareza da palavra, a riqueza do som. Aproveito para a talhe de foice eleger este concerto como indubitavelmente o
melhor de 2005 dos que tive oportunidade de assistir. Algo que ficou registado em mim ao nível celular.
Na linha do sobredito a propósito do cantochão, a falta de sensibilidade para a linguagem, isso fez-se sentir também na forma indiferenciada como cantam motetes e uma missa de defuntos. Onde está o tom simultaneamente grave e alegre da missa de defuntos? Por um lado partiram do nosso mundo, mas vão para o seu repouso eterno, onde, ficam "libertos" das fraquezas do mundo.
Gostei da movimentação dos músicos durante o concerto. Tendo cantado diversos grupos de peças em locais diferentes da igreja. Mas é pouco, muito pouco. Sobretudo quando se fala forte e feio sobre o "notável" da ocasião. Seria um concerto
razoável, não fora a expectativa criada. Podem-se assumir as pretensões que se achar bem, mas têm que haver algo que substancie essas pretensões. E neste caso não vislumbro semelhante coisa.
É de
saudar sempre a edição de música portuguesa, ainda para mais quando é de compositores com tanta qualidade como
Frei Manuel Cardoso. Não ouvi o disco, nada posso dizer sobre ele. Quanto ao concerto estamos conversados.
Um breve apontamento sobre o trabalho de
João Vaz. Achei em linha com o restante concerto:
enfadonho. Por exemplo, logo a abrir, a Batalha do 5º tom, saíu tíbia, sem ganas. Já ouvi este organista a tocar melhor, bem como a ser dado melhor uso ao instrumento.
Em suma um concerto
esquecível por ocasião do lançamento de um CD com música inédita de Frei Manuel Cardoso. Ocasião sempre
recomendável.
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