jardim das delícias nos capuchos: che cosa é la sensualità?
appa writes on 10.Jul.05 at 15h20
Hieronymus Bosch garden of delights

Assisti ontem a uma excelente conferência proferida pelo musicólogo, gambista e violoncelista Roberto Gini.

O tema era a sensualidade na poesia e como é percebida por vários compositores ao longo da história. O eixo em torno do qual toda a conferência revolveu foi a tutelar figura de Claudio Monteverdi (1567-1643).

O poema escolhido foi o Cântico dos Cânticos que está incluído na Bíblia. O poema descreve o amor entre um homem e uma mulher, no contexto religioso este amor foi interpretado como o amor a Deus, e na vertente do culto Mariano.

Roberto Gini começou por nos dar a ouvir uma peça de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594). Palestrina é um dos resultantes da Contra-Reforma. A música deixa-me algo indiferente. A anos luz dos mestres franco-flamengos que o precederam. E se consta que Lutero teria dito que Josquin Desprez (ca. 1440-1521) era o maior dos compositores, dificilmente o poderia ter dito de Palestrina. Tanto assim é que a Igreja Protestante criaria a sua própria música, cuja forma mais definitiva seria dada pelo genial Heirinch Schütz (1585-1672). A música de Palestrina instalou um equívoco que Roberto Gini não rechaçou: o de que a estrutura da música e a inteligibilidade do texto são coisas em oposição de fase. Aliás a polémica que abriu as portas a Palestrina, é similar à que abriu a porta ao estilo de um Guillaume Dufay (1397-1474), que em grande parte cria um estilo "novo" no séc. XV que se distancia dos "excessos maneiristas" da Ars Subtilior e de compositores tão artificiosos como um Jean Ciconia (ca. 1335-1411), ou mesmo mais atrás de um Guillaume de Machaut (1300-1377). Coisas "obstrusas" como motetes triplos, em latim e francês, ou em italiano com latim. Politextualidade, polirritmia, isorritmia, &c.

Para mim, na minha muito desqualificada opinião de simples melómano, tal tipo de argumentação nada mais revela que a falta de arte dos intérpretes. Um bom músico consegue tornar a obra mais difícil, mais artificiosa, uma coisa simples e acessível. Que comunica com o ouvinte de imediato, que agarra o ouvinte pelas vísceras. Deve parecer fácil, mesmo quando é difícil, muito difícil. E é neste parecer que está o cerne da coisa. Mas eu divago. Voltemos à vaca fria, i.e., à conferência de Roberto Gini.

Depois do Palestrina e da leitura de um poema por Carmen Dolores; Gini situa a morte de Palestrina (1594) como um momento seminal daquilo que se viria a denominar de Barroco. O homem tinha então percebido que este rochedo suspenso no espaço não era o centro do universo e que havia outros centros, havia também a descoberta do mundo microscópico e que como o universo parecia existir em múltiplas escalas simultâneas. Algures entre a dimensão cósmica e a microscópica está o mundo do humano. Não pode mais viver como se a sua escala fosse a única, mas ciente de que:

There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy.

Sem dúvida que o despontar da cultura científica afectou toda a visão do universo que o homem tinha, mas se em parte ela terá propiciado o nascimento da estética Barroca, também não posso deixar de ver esse mesmo parto como uma reacção ao empobrecimento que a Contra-Reforma promoveu. O zelo moralista da Igreja teve como resposta a explosão das formas e da sensualidade na Arte. Uma re-re-descoberta da antiguidade clássica. Roberto Gini não desenvolveu este aspecto, foi pena. Tudo existe num contexto e Gini foi parcial na análise desse contexto. Não sei até que ponto tal omissão deriva de uma fé religiosa, ou de uma consideração mais analítica da influência da Contra-Reforma. Eu não vejo como ignorá-la. Para mim é muito mais o motor da estética Barroca que a cultura científica, que me parece uma mais remota causa. Mas ela terá a sua influência, como mais abaixo desenvolvo.

Aqui Gini entra no vif du sujet: a obra de Claudio Monteverdi. Sente-se que Gini nutre pela música deste autor uma devoção e uma paixão, um amor desmesurado. Sem dúvida que Monteverdi é figura incontornável da história do Ocidente. Ele está nos antipodas de um Palestrina. Não há mais o liquidar da emoção, não há mais o eliminar do trágico. Monteverdi abraça o trágico e torna-o na mais alta expressão da alma humana. Nas pegadas de outros, desde a Grécia antiga.

A subtileza nas modulações da música e da voz servem a retórica, servem o propósito de co-mover o ouvinte. De agarrá-lo, de lhe proporcionar uma experiência marcante. À óbvia arquitectura de Palestrina opõe-se a aparente simplicidade e subtileza de Monteverdi.

O modo como a música de Monteverdi se integra na teorização dos Affetti tão cara aos pensadores da música do Seicento é um elemento na argumentação de Gini. Sem dúvida que o teorizar do efeito que a música provoca no ouvinte é uma característica nova do Barroco. Até aí não houvera semelhante empresa em semelhante escala. Aqui sim se pode ver a influência da cultura científica. A necessidade de analisar, engendra a reducção, para que a realidade seja abordável. O teorização dos Affetti não é mais que uma transposição para o domínio da Arte de um discurso científico, da postulação de uma relação causa-efeito, entre o som e o que o ouvinte sente por via dele.

Mas também se pode argumentar que a teoria traz consigo a morte da invenção. Por outro lado será que esta temática não teria sido já abordada pelos antigos compositores? O contexto do Seicento difere por demais do contexto do Quattrocento, por exemplo. No primeiro temos uma imprensa já bem instalada com a cultura e a literacia ao acesso de uma maior franja da população. No segundo temos a dispendiosa cópia de manuscritos, que é acessível apenas a uma reduzida elite, e que pode ser compreendida por também uma reduzida franja da população.

O que parece nem sempre é. E há que pisar com cuidado nestes trilhos. Não ponhamos o pé em terreno movediço e nos atolemos nos equívocos que o séc. XIX instalou. O Barroco é um momento interessante da história do Ocidente. Mas não é necessariamente o mais luminoso. Não é por uma estrela estar mais longe de nós, e consequentemente a sua luz demorar mais tempo a chegar-nos que é menos brilhante que as estrelas que nos estão próximo.

Não tenho obviamente resposta para esta questão da luminosidade relativa de cada época. Contento-me em ser capaz de formular a pergunta.

Roberto Gini, deu exemplos, e leu magnificamente um excerto de um códice que moralisticamente admoestava as religiosas contra o canto de madrigais que não tivessem como móbil o louvar a Deus. As seculares alegrias do canto e de relação das cantantes com o público são tidas como manifestações do Diabo.

Outra questão levantada foi a leitura mais ou menos sensual do poema. Monteverdi resgatou o seu caractér sensual da abordagem mais utilitária de um Palestrina. Nisto Gini relata um incidente em que ao entrar numa livraria deparou com o Cântico dos Cânticos arrumado na secção de literatura erótica. Isso deixou-o deprimido, porque no seu dizer, como é possível reduzir o sublime ao vulgar?

Esta simples interrogação encerra em si matéria mais que muita para desenvolver. Muito esquematicamente:

  1. O que é a sensualidade? Em que é que se distingue do erotismo?

  2. O que é o sublime? Em que é que não funciona como um sucedâneo da ideia de Deus?

  3. Porque razão há hoje uma "redescoberta" das coisas da sensualidade? Será por via da repressão que sobre essas coisas a Igreja, em especial após a Contra-Reforma, exerceu?


Prefiro deixar as questões a pairar no ar. Que voem, são demasiado saltitantes e despertas para que se deixem capturar por um qualquer discurso apologético.

Por fim manifesto o meu desacordo com aquilo que me parece ser uma tese bastante difundida. O Barroco não inventou nada de novo. Aliás, não ficou para mim claro que Gini não tenha uma visão linear da história da Arte. A mim cheirou-me um bocado a uma certa crença no progresso. Mas pode ser que seja só impressão minha, sou muito sensível a este aspecto.

A verdade é que a questão da retórica, ou de a música e o texto formarem uma coisa juntas que mais separadas não é uma característica do Barroco. Já tinha sido feito antes, até com mais arte, no sentido de ser artificioso. Situo-me naquele período efervescente que tem um pé no medievo e outro na Renascença. O final do séc. XIV e início do XV. Na corte francófila de Milão, do qual Roberto Gini é nativo, julgo.

O compositor chama-se Matteo da Perugia ou o nome latinizado de Mattheus de Perusio — para os mais distraidos eis a razão do nome deste site.

A obra é um Gloria que cita uma balada de um outro compositor, Filippo da Caserta, En attendant. A interpretação está a cargo da Mala Punica com Jill Feldman no canto.

Depois de ouvir isto não creio que se possa a ter fé no "progresso" em Arte. Adiante.

A conferência foi excelente. Roberto Gini recria-se com um assunto que lhe é caro, e do qual tem muita experiência. Gini não entende: conhece, compreende. A anos luz do registo de académico insuflado que por vezes ocorre em conferências. O seu entusiasmo é contangiante, e "arrastou" os presentes — que poderiam ser mais diga-se — por mais de hora e meia de uma conversa fascinante. Entremeada com exemplos musicais e com o recitar de poemas, quase sempre os que depois eram usados nos exemplos musicais.

Carmen Dolores foi excelente a sua inteligência , a sua subtileza. O seu registo "natural", jamais resvalando para uma pose de grandiosidade balofa que emascula o texto. A sua sensibilidade para o ritmo, para a "musicalidade" natural do discurso falado, foi um deleite para os sentidos.

Em contraponto dissonante esteve Luís Madureira. Nunca logrou encontrar um registo que estivesse a par da sua colega. Uma falta de sensibilidade para o ritmo, para o itinerário das palavras e das imagens que evocam no poema, tornaram a sua leitura entediante e um momento esquecível. Havia também alguma afectação no dizer, um arremedo, ainda que algo subtil, da pose de declamador romântico: o estilo grandiloquente e oco.

Foi generoso ao aceitar cantar um madrigal de Alessandro Grandi (ca. 1575-1630) no fechar da conferência à primeira leitura. Mas demasiado vibrato tornaram a sua prestação desagradável. O texto foi pouco inteligível. As circunstâncias amortecem algum do desagrado com que o ouvi.

O programa distribuido, ou melhor as notas que acompanhavam a conferência são bastante incompletas. Faltam coisas tão básicas como uma listagem das peças utilizadas para ilustrar musicalmente a conferência. Uma transcrição dos poemas lidos. Uma sinopse da conferência. Seria útil ter também alguma iconografia.

Outra coisa a ver é a eliminação do nível de ruído fora da sala. Chegou a ouvir-se música do tipo "bate-estaca" e falatório animado a volume generoso. Isso afectou-me, e presumo que ainda mais ao conferencista e aos actores.

Não obstante foi uma iniciativa de saudar. Gini é um óptimo conferencista e sabe do que fala. Não nos ofereceu uma resposta acerca da passagem a música do cântico dos cânticos, em vez disso apresentou a sua visão das coisas. E assim tal como Zaratustra nos interroga:

Esta é a minha maneira. Qual é a vossa?

Ao ensaio para um novo Festival dos Capuchos:

Keep up the good work.