piano-forte clementi de queluz sem ser tocado
appa writes on 20.May.04 at 20h19
Um belo dia Ton Koopman descobre no Palácio de Queluz um piano-forte completamente partido, que desde logo identifica como uma preciosa raridade.

E restaurar esta preciosidade: há dinheiro? Dizem que não. Na época, Jorge Gil, responsável do Em Órbita, organizava os Concertos Portugal Telecom, alguns dos quais tinham lugar no Palácio de Queluz — na sala do trono — e de imediato se prontifica para ceder a receita dos concertos lá realizados para constituir um fundo para a restauração do Clementi por um artesão competente no assunto: coisa difícil de encontrar, e que se contam pelos dedos da mão por esse mundo fora.

O tempo escoa-se e em 2002 o piano restaurado por Joop Klinkhamer em Amesterdão regressa a Queluz.

Nesse mesmo ano 2 concertos integrados nos VI concertos Portugal Telecom, fazem bom uso do piano: o primeiro com Jacques Ogg, e o segundo com Andreas Staier, interpretando peças de Muzio Clementi e fazendo um sublime número extra-programa: uma sonata de Carlos Seixas. A melhor interpretação de Carlos Seixas que já ouvi em qualquer instrumento de tecla.

Quem lá esteve ouviu a sonoridade refinada, delicada, subtil, capaz de transmitir as nuances da música. Algo fora do alcance do melhor Steinway de hoje. Ouça o piano aqui.

O piano está exposto na sala da música. Embora a informação disponível sobre ele para o visitante seja miníma.

Sendo um piano do início do séc. XIX (1810), a estrutura é toda em madeira: sendo construido como os cravos de fabrico inglês tardios. Contudo a tensão nas cordas é consideravelmente maior, e dado a susceptibilidade da madeira a variações de temperatura e humidade, se o piano não se encontra num ambiente minimamente controlado, a tendência para empenar é elevada. Tanto quanto sei, o local onde o piano se encontra não tem um desumificador: sucede que o piano já está empenado de lado.

Os embustes desgradam-me, foi com alguma tristeza que na Festa da Música deste ano ouvi Andreas Staier e Melvyn Tan interpretarem peças de Schumman e Mendelsohnn num Steinway: que é um excelente piano mas que jamais estaria na mente de Schumann ou Mendelsohnn quando compuseram as suas peças. Ainda por cima, o Clementi de Queluz dada a sua delicadeza, ganha em ser tocado com frequência. Desde Outubro de 2002 que o piano não é tocado, ao que julgo saber. O Palácio de Queluz tem a política de não emprestar o piano-forte, nem mesmo para uma viagem de alguns quilómetros até ao CCB.

Para que possa voltar a ouvir a sonoridade magnífica deste instrumento encantando auditórios e intérpretes. Noutras latitudes e longitudes as coisas seriam diferentes: o piano seria utilizado e mostrado com orgulho promovendo um país que sabe preservar o seu legado. Não respeitar o passado é hipotecar o futuro.