europeu: nostálgico da cultura europeia
appa writes on 04.Jul.10 at 22h24
Mafra 19 Dez 2009. Auditório concerto

Frio de rachar em Mafra, 19 de Dezembro de 2009, 21h00. O que me
fez lá ir foi a anunciada ocasião de ouvir pela primeira vez, após
mais de um século, os seis órgãos da Basílica. Não havia lugares
sentados, ou melhor havia muito atrás, próximo das portas que
permaneceram escancaradas durante todo o concerto. Não, não havia
alternativa: era ir para diante, encostado à parede de pé. Era a
única solução viável. Mais tarde a bonomia dos organizadores deixou
que a turba ocupasse o corredor central. Não havia programa para
distribuir pelo público em geral. Havia um pequeno desdobrável para
os convidados do Barclays, grandes VIPs locais e VIPs nacionais
menores. Houve discursos, diria mesmo mais ainda: houve
discursos. A ocasião assim o exigia. Foi o sr. director do Palácio
Nacional de Mafra, o sr. sub-secretário de estado, o
sr. administrador do Barclays (o mecenas: conciso), o sr. director
do Palácio Nacional de Mafra e o musicólogo Rui Veira Nery: o único
que falou da música e dos instrumentos.

O coro Voces Cælestes sob a direcção de Sérgio Fontão e seis
organistas: João Vaz, Rui Paiva, António Duarte, António
Esteireiro, Margarida Oliveira, e Isabel Albergaria. Não há muito
para dizer sobre o concerto. Foi bom, se descontarmos a falta de
ambição programática. Stille Nacht e Adeste Fidelis sendo pops
natalícios ficariam bem no átrio da estação do Metro ou na tarde
dominical do Centro Comercial. Talvez para amenizar a ocasião para
os VIPs e convidados se tenha aguado o programa. Talvez. Mas eu
queria e esperava mais. Esperava uma visita da Escola de Música da
Sé de Évora. Houve Mozart, houve Fr. José Marques da Silva. E houve
uma harmonização de Michael Praetorius de uma música tradicional
que João Vaz arranjou para seis órgãos e coro. Durou pouco mais de
dois minutos. Valeu a pena, se valeu. Tudo o resto se eclipsa: as
arengas inanes pendulares, as lâmpadas de Xénon que dispararam
durante todo o concerto, o barbarismo socialmente sancionado dos
convidados do Barclays, tagarelando amiúde e fazendo fosquinhas aos
seus telemóveis.

Soube a pouco, pouquíssimo. Não creio que os seis órgãos estejam
operacionais; talvez alguns registos funcionem, precisamente aqueles que
habilmente foram usados no arranjo. Nem sequer creio que os quatro
órgãos estejam 100% funcionais. Mais de 85% do tempo foram dois órgãos
só. Prometer a Lua e dar um punhado de terra. Caiu-me assim.

Será que se o restauro estivesse totalmente na mão de privados já
teria sido concluido? Havia o rei: tinha manias, tinha gostos,
tinha privilégios, tinha idiossincracias, tinha poder. Há o burocrata:
tem manias, tem ideologia, tem privilégios, tem cinzentismo, tem
poder. E a nossa responsabilidade individual? E colectiva? Eu?
Reaccionário? Nostálgico? Neti, neti.

Nota: Este artigo apareceu no número 1 da revista Glosas do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa.

Fotografia de Luís Ponce de Leão.