festivales 2010
appa writes on 19.Jul.10 at 01h18
Seminole Medicine Man daughter

Tenho ido pouco a concertos e ainda menos a festivais. Razões para isso são múltiplas.

  1. O empobrecimento acentuado do panorama de concertos em Portugal. Tirando os nada imaginativos programas de Música Antiga da Gulbenkian o panorama é árido.

  2. Tenho outros interesses fora da Música. Um deles é o cinema. Esse também recentemente ferido de morte com o falecimento de João Bénard da Costa. Estando agora entregue a sólidos burocratas e party hacks.

  3. Nada melhor que fazer um jejum de música. Para poder voltar a ela mais tarde com um nova forma de olhar e mexer. Os festivais reflectiram no particular o geral do empobrecimento do panorama da música que uns chamam clássica e outros chamam erudita.



Muito haveria para dizer acerca do papel de desinvestimento do estado que não obstante ordenhar o cidadão contribuinte de forma vigorosa aplica o vil metal em obras mais meritórias segundo a clarividência do animal político. Curto e grosso:


Pois pá isso da música clássica é giro mas não dá
votos e como tal vai daí fazem-se uns concertos nos comícios. Havia um político que segundo se consta começava todos os discursos com a abertura do Rienzi de Wagner executada por uma banda militar, nós que renegamos esse #$%& abrimos com o Tony Carreira. Topas?


Mas eu divago. Não me interessa agora falar da relação sórdida entre o estado e a cultura. Nem vou cair na banalidade grosseira de comentar as efabulações cândidas de que a música estaria bem servida sendo a burocrata-mor de serviço ministra uma ex-pianista que fez o tirocínio em instituições estatais de cultura — um oximoro — até atingir o nec-plus-ultra de ser chefe dos burocratas da cultura.


Ao que interessa afinal há festivais ou não? Sim há uns poucos. Uns sobrevivivem como uma certa ficcional aldeia Gaulesa outros já incorporados na nova tendência da cultura multicultural/multidisciplinar/multicontinental/multilateral/multi-qualquer-coisa-não-sei-bem-o-quê. Exemplificando esta última tendência temos o Festival de Sintra que por ter um site todo feito em flash me recuso a colocar aqui um link.

Festival Música em Leiria. É uma iniciativa do Orfeão de Leiria e é um festival já com tradição na região de Leiria. Uma região particularmente empreendedora. Daí que faça sentido que esse empreendedorismo tenha uma contrapartida cultural.

Julgo ser a primeira vez que falo deste festival aqui. Confesso que nunca antes me detive a olhar para o programa. Pareceu-me uma coisa demasiado comprometida com a típica falta de imaginação programática da Gulbenkian. Não creio que tenha mudado assim tanto. Mas não se pode regatear loas a um concerto como La Venexiana no Mosteiro da Batalha. Não sei quem teve a ideia. Mas é um concerto a que muito gostaria de ter ido. Quem foi veio de lá farto de uma experiência inolvidável, constou-me.


O director do Orfeão disse as típicas larachas sobre o "neoliberalismo", esse fariseu canalha, e assim tenta justificar a diminuição de público e a apatia que tudo permeia.

Sr. Director seja mais imaginativo. Crie uma personalidade forte para o seu festival. Deixe de tentar agradar a todos com uma programação incaracterística. Assuma um rumo e siga-o. Faça mais concertos como o da "La Venexiana". Cobre dinheiro pelos bilhetes. Está provado que as pessoas valorizam muito mais algo que pagam que o que é gratuito. Há na mente das pessoas a associação entre a gratuitidade e a mediocridade. E não há forma de reverter isso. É uma coisa intrínseca ao humano.



A cultura não é gratuita, nunca nada de valor é gratuito, há sempre um preço a pagar por algo que vale a pena.


Pai Natal para o ano de 2011 gostava de ouvir o Faventina no Mosteiro da Batalha. Tenho-me portado bem, i.e., mais ou
menos. Obrigadinho. Ah sim e com bilhetes a pagar, para não ter que aturar energúmenos que só vão lá porque é à borla e não têm mais nada para fazer. Grato.


Festival de Música da Póvoa de Varzim: É quanto a mim o melhor festival que existe em Portugal. Melhor porque tem sobrevivido a todos os sobressaltos políticos e económicos. Porque continua a ter uma programação com aspectos originais. Trazendo cá agrupamentos como a Capilla Flamenca. Noto que nos últimos anos tem mantido uma linha programática sobre a polifonia Renascentista. É de saudar, pois é coisa a que mais ninguém passa cartão por cá em eventos de projecção equiparável.

O máximo relativo deste ano é sem dúvida o concerto da Capilla Flamenca no passado dia 16. Mais um concerto a que gostaria de ter ido. Mas que infelizmente não pude ir. Destaques até ao fim do mês:

  1. 21 de Julho: o agrupamento Les Basses Réunies sob a direcção de Bruno Cocset no violoncelo apresenta um programa de sonatas em trio de *Johann Sebastian Bach (1685-1750).

  2. 25 de Julho: Duo com o cravista Pierre Hantäi e a violinista Amandine Beyer apresentando um programa de sonatas para violino e cravo de Johann Sebastian Bach.

  3. 31 de Julho: O agrupamento Il Gardelino sob a direcção de
    Marcel Ponseele no oboé a interpretar obras de J.S. Bach, Alessandro Marcello (1684-1750), Melchior Hoffmann (ca. 1685-1715) e Carl-Philipp Emanuel Bach (1714-1788).


Todos os concertos têm início às 21h45. Mais informações no site do Festival.

Noto também que este festival tem agora uma carteira de patrocinadores. Cada concerto tem um patrono específico. Isto para lá dos caprichos dos apoios estatais. É este o caminho a seguir, creio.

Festival Internacional de Música de Espinho: O concerto a destacar
é o do Amadinda Percussion Group no dia 21 de Julho às 22h00 em concorrência/alternativa ao do Les Basses Réunies mais a norte. O resto não me merece grande comentário. Destaco o facto do concerto de Arturo Sandoval estar já esgotado. O que prova que não é por ter um produto inferior que não se singra, mas por saber vendê-lo. Os promotores do Jazz em Portugal têm sabido vender o Jazz, ao passo que os da música erudita/clássica não sabem vender o que têm. E ao contrário da ideia que anda por aí a pular não é preciso diluir nada para as mentes da turba. O que é preciso é correr com a brigada do reumático e dar uma vassourada vigorosa para limpar as teias da aranha.