flores de música no ccb: et mvsica motus
appa writes on 01.Nov.05 at 20h28
wave breaking on shore

Assisti ontem a um mau concerto pela ocasião da inauguração do novo espaço da patriarcal no CCB. Apresentaram-se os agrupamentos Flores de Música e Capela Joanina sob a direcção de João Paulo Janeiro. A obra interpretada foi os Matuttini de'Morti do compositor David Perez (1711-1778) mestre de capela do Rei D. José I.

Mau porque não percebi a concepção que o maestro tem da obra. Será uma obra sacra? Será uma cantata profana para abrilhantar serões burgueses ou aristocráticos? Será uma ópera em versão de concerto? Não sei. Não percebi o que é. Foi exibida uma despudorada inconsistência estilística.

Por vezes havia um arremedo de tom grave e pesaroso, por vezes parecia uma ópera com a entrada do coro numa ária de bravura: o tutti cilindrava os timpanos do auditório. Não havia uma distinção clara entre os momentos trágicos e os exultantes, por saber-se que aqueles que nos deixaram estarão agora melhor, de acordo com a escatologia Cristã.

Mau, porque não me parece ter havido cuidado com a articulação do texto. Não consegui perceber quase nada do que foi cantado. Nada de surpreender se estivesse lá para ouvir Verdi, mas não era esse o caso. Este descuido com a prosódia do cantado foi penoso em inúmeras ocasiões: elego duas.

Luís Rodrigues será um óptimo baixo para cantar ópera romântica mas totalmente desajustado para este reportório. No seu cantar as vogais esmagam completamente as pobres consoantes, o que poderá ser adequado para Puccini por exemplo, mas insólito nesta obra. Resultado: nada se percebeu, muito volume mas pouca informação transmitida. Na ópera romântica o essencial não é perceber o que está a ser cantado, mas antes o fogo de artifício vocal para impressionar os papalvos que entopem o auditório. Caso de estudo foi o De profundis clamavi. Luís Rodrigues fez muito barulho, o 'o' sonoro, o 'u' sonoro, o 'i' sonoro. As vogais abertas bem mais longas que a fechada 'i'. Depois as consoantes, parentes indigentes da gramática do cantar lírico, foram emudecidas. Resultado, Luís Rodrigues "adiantou-se" e cantou a palavra toda antes a música acabar, donde acabou por fazer uma "inversão de marcha" no cantar, por demais audível. Prooooofuuuuundinnnns. O último 'n' soou como um 'a' para a "ligação" com o 'i' parecer menos mal.

Rute Dutra uma das sopranos, cantou o Requiem æternam do 2º Nocturno dos Matuttini sem critério nenhum do ponto de vista da articulação do texto. Como se as palavras fossem meros pretextos para produzir som sem preocupação alguma com o seu significado e a fidelidade aos fonemas que a constituem. O æternam saíu partido, com o æ desgarrado do ter e o nam como um electrão livre que salta para uma órbita mais exterior, em lugar de uma concepção nuclear da palavra e da música. Poderia dar exemplos de coisa semelhantes para as prestações da meio-soprano Joana Nascimento com o acréscimo de abusar mais do vibrato. Idem para o medíocre contratenor Nicolau Domingues do muito sofrivelmente audível contratenor Ricardo Ceitil. Mau também o baixo Bruno Pereira: o nível zero da expressividade e da inteligibilidade. O tenor Vitor Sousa, fraquito, muito a medo, muito sem convicção.

As excepções à débil prestação dos cantores da Capela Joanina foram a soprano Orlanda Isidro, embora longe do que lhe tinha ouvido fazer em Mafra onde cantou duas árias da mesma obra. O que comprova que neste caso o contexto foi determinante para o mau resultado global. Bem também o tenor Marco Santos, foi dos poucos a remar contra a maré da falta de musicalidade. Um timbre agradável e uma boa articulação com o texto.

Mau, porque a orquestra Flores de Música tem uma sonoridade forte e feia. Sem nuances, sem clareza, sem subtileza. Foi incapaz de dar os tons relativos a cada uma das fases da obra. Uma sonoridade indistinta. A distância entre esta orquestra e a Capela Real é infinitesimal. Tal como a história da lebre e da tartaruga, a Capela Real leva avanço, mas a tartaruga Flores de Música segue-a de perto com afinco. Destaques negativos. Álvaro Pinto é especialista em fazer soar mal o violino, arranha os ouvidos. Interrogo-me se o violino "barroco" que ele se julga tocar não será um equívoco e se não seria mais acertado enveredar pelo violino comtemporâneo com obras de Gubaidulina e Ligeti, por exemplo. Muito mal as trompas. Dois músicos forasteiros Jonathan Luxton e Eric Murphy, massacraram os ouvidos, sobretudo nos dois últimos nocturnos, no fim o descalabro instalou-se e foi penoso ouvi-los tocar. O órgão tocado — pelo menos eu via as teclas a serem pressionadas embora quase nada ouvisse como resultado dessa acção — por João Paulo Janeiro, que foi incapaz de fazer ouvir-se o órgão. Penso que parte desta surdez ao órgão vem da infeliz disposição adoptada, e de que vou falar agora.

Mau, porque a disposição que o maestro escolheu foi francamente infeliz com os cantores e os instrumentistas juntos no mesmo palco, quase à mesma altura. O resultado foi uma sopa sonora incaracterística, sem clareza de espécie alguma. Nada de se ouvir as diferentes vozes. Nada disso. Parecia tudo em uníssono. Um som forte e feio que cilindrava a música e atirava ao auditório uma parede de som toda caiada de branco: sem matizes, sem cambiantes. Será que não teria sido melhor colocar os cantores nas varandas por cima da recepção? A acústica do local é boa, mas mesmo uma boa acústica não substitui o trabalho de colocação que deve ser feito pelos músicos. Os instrumentos saltavam em cima das vozes e vice-versa. Mau, muito mau. E eu estava bem à frente na plateia.

Mau, porque tive o privilégio de presenciar mais uma inovação lusitana. Depois do memorável concerto do Divino Sospiro em Mafra, com o público a ser tratado como um passivo deglutidor de música, pois não tiveram a gentileza de o informar da completa alteração do programa, assisti ontem à inovação de o maestro dirigir e tocar o órgão de costas para o público em pé numa posição arqueada — para poder tocar o órgão — com o tardoz enfileirado para o público. É feio, deselegante, e presumo que pouco simpático para as vértebras do maestro. Não teria sido melhor encostar o órgão ao balcão da recepção, o que permitiria ouvi-lo e evitar o maestro estar de costas para o público com o tardoz enfileirado. Permitiria também que os músicos vissem bem as direcções do maestro.

Mas a ocasião é de festa. Independentemente do resultado artístico deste primeiro concerto ter sido mau pouco ou nada deslustra o facto de este ser definitivamente um espaço com futuro como local de concertos e que atraí público, como o comprovou a casa quase cheia de ontem. A acústica é boa, e permite fazer muitas coisas ao nível da colocação dos músicos e do envolvimento do público pela música. Parabéns ao CCB pela ideia.

Termino com uma nota negativa para a pobre desculpa para programa vendida ao exorbitante preço de 50 cêntimos. A informação constante do "programa" é quase nula, apenas com o alinhamento. Textos cantados não há. Notas sobre a música também não. Mais valia pedir 1 EUR e fornecer um programa mais programa.

Em suma um mau concerto, numa auspiciosa ocasião, como é sempre a da inauguração de um novo espaço, ainda para mais insuspeito, e com uma acústica adequada. Haja música. Boa música. Lá estarei para a fruir.

Ao CCB:

Keep up the good work.