grupo de música contemporânea de lisboa no ccb: saber nadar
appa writes on 10.Apr.05 at 14h50
salmon swimming up river

Assisti o passado Domingo dia 3 de Abril a um muito bom concerto pelo Grupo de Música Contemporânea de Lisboa (GMCL). O programa apresentado foi:


O GMCL é constituido por:

Cada compositor apresentou a sua própria obra, à excepção da obra de Jorge Peixinho, que foi apresentada por Christopher Bochmann.

Gostei da obra de Francisco Monteiro. Bastante variada. Infelizmente o programa que o CCB forneceu não incluí os textos cantados. Se bem que o compositor referiu que a obra é inspirada por um poema de Vasco Graça Moura. E foi perceptível a referência à obra homónima de Giorgione (1477-1510).

Tal como o compositor disse é uma obra que remete para os ambientes pastoris e um certo bucolismo, e simultaneamente para a nossa paisagem citadina. Para uma melancolia citadina actual versus a antiga melancolia rural. O campo hoje não é mais um campo rural é antes um campo suburbano, para onde os citadinos "fogem" aos fins de semana. É o campo do turismo rural, o campo como local de lazer e essencialmente contemplativo. A velha relação do homem com a terra é algo de residual. O campo como local recreativo apenas.

Nas cidades as nossas árvores são os edifícios, os nossos rebanhos são as turbas de pessoas e veículos das horas de ponta. As nossas desfolhadas — também já convertidas em fenómeno turístico de abertura fácil — são as saídas noctívagas nos bares e discotecas. A música de Francisco Monteiro invoca a história de música com as inúmeras obras de temática campestre, pastoril. Mas coloca-nos também perante a dura realidade do nosso novo campo. Da nossa paisagem campestre citadina. Não numa perspectiva nostálgica, mas de constatação da realidade. De aceitação. Os momentos mais melancólicos alternavam com os momentos mais activos com dissonâncias, com "combates" entre os vários naipes. O nosso é um mundo de caos, de desordem, de dissonâncias, é nele que temos que viver. Os idílios campestres são uma coisa do passado. Temos que criar os nossos idílios campestres na cidade, apesar da sua hiperactividade: contrastante com a quase imobilidade do campo. A peça comunicou-me estas ideias.

Gostei da interpretação do GMCL. Muito certo, com entrega, com afinação. Particularmente bem os sopros, com João Pereira Coutinho a dar mostra da sua excelente técnica ao suster uma nota contínua durante imenso tempo. A flauta é o instrumento pastorila por excelência, ao "esticar" a sonoridade da flauta o compositor propõe uma nova música bucólica, que vem na linha e ao mesmo tempo diverge da velha música pastoril. Que era melodiosa, ligeira.

A obra de Sara Carvalho foi a que menos me agradou no concerto. Desde logo começou mal, com a compositora a ler o texto de um papel, mal lido diga-se. Sem pontuação, sem pausas. De rajada. O preâmbulo à apresentação da obra foi um enfadonho texto sobre o "processo criativo". Francamente desinteressante. Foi-se ali para ouvir música, e não para uns sound bytes sobre o "processo criativo" glosados de meia dúzia de livros escritos por onanistas intelectuais. Que em lugar de tentarem criar se divertem com word padding sobre o "processo criativo". Mau, muito mau. De seguida veio a apologia da peça, com referências a um templo no Cambodja: Ta Prohm.

Polirritmias e não só. Foi nisso que a compositora falou. Achei a peça falha de ideias. Desinteressante. Sugiro, como simples melómano, que a compositora ouça até que ponto a complexidade rítmica pode ser um artifício expressivo do mais elevado nível. Compre os todos os CDs da Mala Punica. Pode começar pelos motetes de Johannes Ciconia (ca. 1335-1411). Aqui o compositor não se limitou a um mero exercício académico, mas conseguiu que os elaborados artifícios rítmicos que a música tem na sua base sirvam a expressão artística. No caso da obra de Sara Carvalho a polirritmia foi empregue de uma forma académica, sem contrapartida artística, parece-me. Há ainda o Zaccara da Teramo (1390-1413), sugiro a ballada codificadamente autobiográfica Sumite Karissime. Last but not least, o Matteo da Perugia. E são compositores do obscuro e "atrasado" séc. XIV. Por oposição ao nosso esclarecido e pós-serial séc. XXI.

Para além dos aspectos musicais tem também que caprichar na forma como apresenta as suas obras. Não basta os compositores queixarem-se que o público de hoje despreza a sua música. O modo como eles comunicam o seu pensar é essencial para uma melhor recepção das mesmas. Não é com vinagre que se apanham moscas, e como tal não é com muy aburridas conversaciones sobre o "processo criativo" e outros tópicos "esotéricos", que se cativa o público. É não perceber que papel dos aperitivos num bom repasto é o de abrirem o apetite para o prato principal e não o de causarem azia. Já aqui escrevi sobre esta temática. E repito o que então disse. Se um(a) compositor(a) não tem nada para dizer deve calar-se. A sua música é que deve "falar".

João Madureira apresentou uma obra curta mas interessante. Inspirada num poema de Ruy Belo. Tal como o poeta consegue que no poema coesxistam 2 temas, 2 linhas de desenvolvimento, também aqui João Madureira explora esta possibilidade. O modo como o texto e a música podem dizer coisas diferentes coexistindo na mesma peça musical. Subtil, enérgica, ritmada. Gostei.

Clotilde Rosa compôs uma peça sobre um poema de Armando Silva Carvalho: "Menino e Moço". É uma peça curta mas interessante. Agradou-me o desafecto e modéstia com que a compositora apresentou a sua obra.

A peça de Jorge Peixinho ocupou toda a segunda parte do concerto. Foi para mim, claramente, a melhor do concerto. Uma peça que envolve texto, música, ruídos vários. Tem inclusive uma componente cénica, que aqui não foi realizada. Mas mesmo sem essa componente cénica explícita, a peça tem já em si, muito de teatral. Com o texto e a música a interagirem de forma pouco habitual. Recordo que a peça é de 1971. Para a época era uma peça bastante original, e de acordo com Cristopher Bochmann é provavelmente a primeira peça de teatro musical da modernidade lusa. Gostei da mezzo-soprano Susana Teixeira. Gostei do modo como variou o registo , consoante o que se lia era uma parte de texto declamado ou cantado das mais diversas formas. Aliás esta cantora esteve bem durante todo o concerto, com uma preocupação de articulação do texto, de modo a que se consiga perceber. Com contenção, sem cair em excessos operáticos.

A soprano Angélica Neto esteve também muito bem. Gostei do timbre da sua voz e do empenho com que se entregou à interpretação da bela música de Jorge Peixinho.

O texto fala das sombras, da noite, da morte, termina com algo do género: "o silêncio é a morte". Há ruídos, notas soltas, longas notas para a soprano. Sons percutivos das mais variadas origens, pífaros de plástico, tímbales, &c. O problema nesta peça foi precisamente a percussão. Fátima Pinto fez o que pode, mas parece-me que a peça pede 2 percussionistas e não apenas um.

Todos os músicos falam, a harpista, a percussionista, para além das cantoras. Na harpa Andreia Marques esteve bem. Gostei da forma como disse o texto que lhe cabia dizer. Mostra que houve uma preparação cuidada.

Há várias coisas a passarem-se ao mesmo tempo. Há vocalizos, há texto, há ruídos vocais, há ruídos percutivos, há texto declamado, gritado. A obra tem um óptimo encadeamento. Tem um ritmo que nos guia do princípio ao fim sem que nos apercebamos do tempo a passar. Em suma: uma auspiciosa estreia da obra de um compositor cuja obra merece muito maior divulgação.

Uma óptima iniciativa do CCB na sua rúbrica de concertos comentados. Mais precisa-se. Constou-me que assim vai ser. Está prevista a integral das peças para piano de Jorge Peixinho, ainda para este ano, ao que julgo saber. Pena foi que o concerto não se realizasse no habitual pequeno auditório. Sucede que estava lá a decorrer uma conferência de uma empresa. E como o CCB está mal de receitas, há que rapar o fundo ao tacho e aproveitar tudo o que está agarrado. Também é nutritivo.

Sucede que a acústica da sala prejudicou a minha fruição da música. A voz era abafada pelos instrumentos. A música contemporânea vive muito da exploração tímbrica, o que requer uma boa acústica. A sala Calempluy é demasiado pequena. Torna o som numa massa algo incaracterística.

Foi o meu primeiro contacto com o GMCL. É um excelente ensemble dedicado à música comtenporânea. Sente-se que os seus membros têm gozo a tocarem a música de hoje. Há empenho, entrega, profissionalismo. Algo que contrasta com outras formações em berço de ouro e que são desplicentes no modo como apresentam a música contemporânea. Fico com vontade de os voltar a ouvir. Isso é certo.


Resumindo um muito bom concerto que poderia ter sido excelente se:

  1. o concerto se tivesse realizado numa sala com uma acústica mais consentânea com as obras a serem interpretadas;

  2. o GMCL tivesse optado por dois e não um só percussionista na exigente obra de Jorge Peixinho.


Keep up the good work.