novo espaço da patriarcal no ccb
appa writes on 30.Oct.05 at 23h29
Lisboa terramoto de 1755

O CCB inaugura amanhã um novo espaço de música: designado o Espaço da Patriarcal em memória da Igreja da Patriarcal que o terramoto de 1755 consumiu.

O concerto inaugural é precisamente com a peça que se crê ter começado na Patriarcal de Lisboa as cerimónias do dia de Todos os Santos do ano da Graça de 1755.

Esta iniciativa é um rebento da mente de João Ludovice consultor para a área da Música do Centro de Espectáculos do CCB. Re-criar os espaços do CCB e ser imaginativo nessa recriação é a ideia. Se um ofício dos mortos ficaria menos bem no grande, ou mesmo no pequeno auditório, poderá ficar muito bem aqui. Testes realizados previamente assim o confirmam. E mesmo que as coisas não corram pelo melhor artisticamente, possibilidade que existe sempre, o dar à luz deste espaço é ocasião bastante para ser elogiada e estimulada. Num pardacento panorama de concertos, arriscar como se faz aqui é de louvar. Por outro lado é também a única hipótese de triunfar. De deixar para trás as geriátricas plateias desembrulhadoras de rebuçados, fauna e parasitas afins.

Termino desejando as maioires felicidades para esta meritória iniciativa e dando parte da minha presença amanhã, dia 31 pelas 21h00 para o inaugurar do espaço. E se a terra não tremer, espero que pelo menos a pasmaceira bovina que é a temporada de concertos em Lisboa trema, e também que o maremoto que seguirá varra do mapa o tédio e o enfado que pululam por aí.

A palavra a quem ideou a coisa:

Uma das consequências da realização de diversas edições da Festa da Música num edifício com as características do Centro Cultural de Belém é a afirmação permanente de uma verdadeira polivalência de todos os seus espaços. Para além dos dois auditórios, as restantes salas, antes destinadas à mais comum das actividades não artísticas, revelam-se afinal locais de elevada qualidade para o menos comum dos repertórios. Existia no entanto uma limitação. Uma importante parte do repertório que, por questões acústicas, raramente se dissocia do local a que inicialmente se destina, é a música sacra.

Depois de teste acústicos realizados, esta constante procura conduziu-nos a um espaço insuspeito - afinal quem pensaria que o CCB, na sua Recepção, possuía uma verdadeira “catedral” à espera de ser “descoberta”. Desde os materiais utilizados, às justas proporções arquitectónicas, com um especial destaque para o tecto em madeira (ao qual só faltam as pinturas e o cheiro do incenso) tudo afinal esteve sempre evidente e apenas nós, que ali passamos diariamente, não tínhamos notado.

Um novo ciclo de Concertos

A apresentação deste “novo espaço de concertos no CCB” coincide com o início do ciclo “Concertos da Patriarcal”.

Nos inícios do séc. XVIII, assiste-se ao começo de uma mudança decisiva na tradição musical em Portugal. A melhoria das condições económicas do país e a preocupação com a realização das cerimónias litúrgicas que rivalizassem com Roma, permitiu a D. João V e mais tarde ao seu sucessor D. José I, desenvolver uma política cultural caracterizada pelo fausto e ostentação, tanto nos círculos aristocráticos como nos círculos religiosos.

Para além da importação de músicos estrangeiros de elevado nível, em 1713 é criado por D. João V o Magnífico, o Seminário da Patriarcal. Nesta instituição, criada sob a dependência da Capela Real será ministrado um ensino da mais alta qualidade a jovens músicos portugueses, sendo os mais dotados enviados posteriormente para Itália, como bolseiros, afim de se aperfeiçoarem na composição e execução musical. Este seminário, após a instituição do Patriarcado de Lisboa, será transferido para o Convento de S. Francisco continuando a formar os músicos que, com a Capela Real, participavam nas cerimónias liturgicas da Igreja Patriarcal. Esta vem a sucumbir ao terramoto que destruiu Lisboa em 1755 mas o Seminário da Patriarcal prossegue a sua actividade até à sua extinção aquando da criação do Conservatório Nacional. A produção musical deste período continua ainda hoje a ser estudada e revelada como uma das mais significativas épocas na história da música em Portugal. Acresce dizer que com o terramoto grande parte da nossa memória musical que se encontrava nos arquivos desapareceu pelo que nos parece relevante que o CCB se afirme também como responsável pela divulgação do que melhor se faz ao nível das ciências musicais para que o passado não seja esquecido.

Uma evocação musical

A obra escolhida para dar inicio ao ciclo de Concertos da Patriarcal no CCB, o Matuttino de’morti de David Perez (Nápoles, 1711-Lisboa, 1778) evocará passados duzentos e cinquenta anos, a memória dos que pereceram no terrível terramoto do dia 1 de Novembro de 1755.

O relato feito por William Beckford sobre as cerimónias da Irmandade de Santa Cecília, em Portugal, aos 26 de Novembro de 1787 e dedicadas aos irmãos entretanto falecidos, revela-nos o seguinte: Fui à Igreja dos Mártires para ouvir as matinas de Perez tocadas por todos os principais músicos da Capela Real... Nunca ouvira tal solenidade e tão impressionante música, e talvez nunca torne a ouvir;...

Este texto traduz de um modo extremamente vivo a experiência auditiva e o contexto de execução, pleno de rituais e de teatralidade, em que as grandes celebrações religiosas da capital se encontravam mergulhadas. Esta recriação musical no CCB dirigida por João Paulo Janeiro utilizará cópias de instrumentos da época.

O compositor napolitano David Perez, Mestre da Real Capela Palatina de Palermo foi convidado em 1752 pelo Rei D. José I, a assumir o cargo de director musical da corte portuguesa, à qual permaneceria vinculado até ao final da sua vida.