onofri, köll & jalôto em mafra: la voce del violino
appa writes on 20.Oct.05 at 21h11
Everett Collier Vanitas

Assisti a um muito bom concerto no passado Sábado em Mafra. O concerto integra-se no IX Festival Internacional de Música de Mafra.

O violinista Enrico Onofri, a harpista Margret Köll e o cravista Fernando Miguel Jalôto apresentaram um programa de Música Italiana dos sécs. XVI e XVII.


Os pouco privilegiados que lá estiveram, pois a sala estava menos de meia, tiveram oportunidade de experimentar a grande arte de Onofri, bem acolitado por Margret Köll, e menos bem por Fernando Jalôto.

O que dizer quando um músico da classe de Onofri se entrega de corpo e alma ao repertório que está a interpretar e instala na sala um encanto. Foi assim. Qualquer um ficaria pasmado com o que lá se passou.

Música belissima, difícil de tocar nos dois sentidos. Música exigente para o intérprete e para o ouvinte. Música experimental, em que há uma incontornável cumplicidade entre o compôr e o tocar. Só um intérprete que se abra a esta cumplicidade é capaz de fazer esta música viver. Caso contrário torna-se enfadonha. Morre. Tal como um organismo multicelular em que cada grupo de células isolado definha se não co-existir com os outros. Formam um todo. Por isso uma abordagem académica do género de: "o compositor compôs e eu toco", cada um no seu cubículozinho, é caminho certo para o desastre.

Neste sentido esta música é iminentemente contemporânea. Pois que na boa música contemporânea a cumplicidade entre o compositor e o intérprete é essencial, caso contrário não resulta.

Onofri tem muita sensibilidade para esta música, para as suas nuances. A música, de caractér experimental, procura imitar os humores e subtilezas da voz humana. O discurso normal de então, seria um em que o favelar devia ser subtil, não afectado, e dentro desta subtileza ser capaz de manifestar todo o vasto sentir humano. Em Itália compositores do final do Cinquecento e início do Seicento, atentos a esta "simplicidade" do falar procuraram reproduzir instrumentalmente a sua riqueza. Um dos veículos preferidos para essa imitação foi o violino.

Onofri imprime à música um pulsar vigoroso, sente-se o coração da música a bater. E com ele o nosso também. A capacidade de variar o ritmo, e a dinâmica, isto sem jamais perder o controlo é de rigor no tocar do violinista.

O único senão foi o recitar do belo poema do madrigal "Anchor que col partire" de Cipriano da Rore (ca. 1515-1565):

Anchor che col partire
Io mi senta morire,
Partir vorrei ogn'hor, ogni momento;
Tant'e il piacer chi'io sento
De la vita ch'acquisto nel ritorno.
E cosi mill'e mille volt'il giorno,
Partir da voi vorrei;
Tanto son dolci gli ritorni miei.

Onofri recitou de uma forma banal, desinteressante. Fazendo apelo apenas à superficialidade da rima. Sim, sei que Onofri é um violinista não um recitante. Mas um pouco mais de cuidado estaria mais em consonância com o restante do seu desempenho. Por outro lado Onofri canta, donde, esperava mais sensibilidade ao texto.

A harpista esteve bem e conseguiu sempre acompanhar a desenvoltura endiabrada de Onofri. Momento de grande beleza do concerto foi a peça que tocou a solo de Francesco Taeggio.

O bemol deste concerto em termos de desempenho dos músicos é o cravista e organista. Pareceu-me sempre em dessintonia com os seus colegas. Não se ouvia no seu tocar o mesmo pulsar que se ouvia em Onofri e Köll. A peça de Frescobaldi que tocou a solo saíu desinteressante. Comparando com um cravista & organista da craveira de Jean-Marc Aymes que toca um Frescobaldi suculento, Jalôto sai bastante perdedor. Achei a sonoridade do cravo utilizado desinteressante, e pouco apropriada à música tocada. Também a disposição dos instrumentos: orgão e cravo alinhados na vertical com os teclados sobrepostos me pareceu infeliz, embora num memorável concerto do Concerto Soave a que assisti na Festa de Música de 2003, instrumentos de qualidade mais duvidosa não obstaram a que a música de Frescobaldi pulsasse de vida pelas capazes mãos de Jean-Marc Aymes. A disposição escolhida por Jalôto, fez com que as frequências mais elevadas do órgão fossem abafadas.

Nada obsta a que Jalôto seja considerado um bom cravista noutro contexto. Mas como membro deste trio parece-me que não se integra no espírito do grupo. Ressalvo que Margret Köll toca já com Onofri há algum tempo no agrupamento Anno 1630 que incluí o excelente cravista Lorenzo Ghielmi, ao passo que Jalôto teve aqui o baptismo no trio de Onofri. O que em parte explica o seu relativo alheamento do espírito do grupo.

Em suma um muito bom concerto, que pede meças ao excelente apenas por via da menos boa prestação do cravista.

Ao Festival de Mafra e aos músicos.

Keep up the good work.