ricercare & sinfonietta de lisboa na sociedade de geografia de lisboa: amador ma non troppo & chover no molhado
appa writes on 17.Apr.05 at 12h37
noah's ark by daziel

Assisti a um bom concerto na passada sexta-feira, dia 15 de Abril na Sociedade de Geografia de Lisboa. Na primeira parte o Coro Ricercare teve uma muito boa prestação ao interpretar música de compositores portugueses contemporâneos sobre música tradicional Açoriana.


O Coro Ricercare foi uma muito agradável surpresa. É sem dúvida o melhor coro amador luso que ouvi até hoje. Gostei da atitude interpretativa: sobriedade, entrega, prazer no cantar, divertimento. Algumas peças eram bastante complexas, com polirrítmias, mudanças súbitas de ritmo, &c. O coro saíu-se bem nestes momentos. Afinação e gozo no que fazem é isso que transparece.

Quanto à música. Bom, antes do mais a intenção de encomendar obras a compositores lusitanos contemporâneos para coro, ainda por mais quando essas obras se baseiam sobre a música tradicional portuguesa, é muito louvável.

Realçar também o excelente trabalho desenvolvido pelos maestros do coro. Paulo Lourenço e agora Pedro Teixeira. Neste último a surpresa foi agradável, dado ter ocorrido de um concerto de polifonia renascentista a que assisti do Grupo Vocal Officium o ano passado na Igreja do Sacramento e que me desagradou bastante. Pedro Teixeira é o director do grupo. No caso deste concerto, e despropositadamente a talhe de foice devo dizer que achei a interpretação nada subtil, incapaz de apresentar as nuances da música. A polifonia renascentista é essencialmente uma música de texturas e quando elas não estão lá a música pura e simplesmente não existe. Deixou-me então uma má impressão este maestro, que por via do concerto de sexta-feira passada foi, senão totalmente obliterada, pelo menos bastante atenuada. Fico com vontade de voltar a ouvir um coro dirigido por ele, coisa que não tinha antes.

Entre um grupo tão diverso de compositores e obras tão distintas há bom, muito bom, razoável e menos bom.

A peça de Vasco Pearce de Azevedo é agradável, mas é para mim a menos interressante das que lá ouvi. Tem uma harmonização clara com um contraponto simples, em que a melodia tem a primazia.

Fernando Lapa ensaiou outro tipo de coisas. Começando em Dormi, menino dormi e acabando em Os Moiros. A última sem dúvida a mais interessante com uma muito boa articulação entre a música e o texto, como um artifício de retórica.

Sérgio Azevedo foi de um extremo de uma música mais "fácil" em Ó meu menino Jesus até ao belíssimo Charamba com polirrítimias e diferentes partes do coro a cantarem excertos distintos do texto. Devo dizer que esta última peça foi das melhores do concerto, e é sem dúvida a música deste compositor que mais gostei de ouvir até hoje. Cheia de ritmo, de força. Pena é que ele não opte mais por esta via mais "arrojada", mas também mais interessante, em detrimento de uma música mais "consumível", logo desinteressante, a meu ver.

Gostei da bela peça de Mário Nascimento e o seu carácter mais reflexivo foi um óptimo contraponto à peça mais "frenética" de Sérgio Azevedo. Mário Nascimento optou por um desenvolvimento em que a clareza do texto é essencial, resultando em belos efeitos de retórica.

Carlos Marecos foi capaz do pior e do melhor. Sobretudo na última canção: Saudade onde há ideias muito interessantes, sobretudo no modo como se articula a música para realçar a palavra saudade, mas perde-se depois. Não consegue manter o nível deste belo momento ao longo da peça. Parece-me ter havido um certo bloqueio que obstou a que a peça, embora com possibilidades resultasse bastante melhor.

O compositor Nuno Côrte-Real ofereceu-nos o conjunto de peças mais equilibrado e variado. Desde a simples harmonização ritmada e dançante de Saudade e Chamarrita indo buscar ideias à tradição da música popular a cappella até à quase exacerbada teatralidade de Demo em que o ritmo é utilizado como um elemento estruturante da retórica do texto. As duas últimas peças deste autor, bem como a última de Sérgio Azevedo foram para mim sem dúvida as melhores de todo o concerto.

Na segunda parte o coro foi descansar e só voltou a surgir no fim, sendo a música assegurada pela Sinfonietta de Lisboa sob a direcção do seu maestro titular Vasco Pearce de Azevedo. Foi uma segunda parte sofrívelmente razoável. Um razoável que resvala desamparadamente para o medíocre. Como alguém que passeando-se despreocupadamente à beira do abismo escorrega e rola pela ravina abaixo, algures no trajecto agarra-se a um arbusto cujas raízes o impede de se precipitar no dito.

O programa interpretado foi:

A peça de Alexandre Delgado foi sem dúvida a mais desinteressante do concerto. É um regorgitar de ideias já gastas e regastas, exauridas até ao limite. Ao ouvi-la interrogo-me se o compositor nasceu no século XX ou em 1865? Para quê persistir num estética alienígena ao nosso tempo? Para quê chover no molhado em termos musicais? Será para fazer o catering para as turbas que se precipitam sobre auditórios, teatros, museus, galerias e cinemas na esperança de serem aliviadas da sua insensata existência? Que querem ser intimadas: violadas pela Arte. A Arte como o arganel que enfeita o nariz?

Monteverdi, Machaut, Landini. Três exemplos do passado de compositores que são infinitamente mais contemporâneos que o Alexandre Delgado que lá ouvi. Nada tenho contra este compositor, cuja competência noutros domínios como, a realização radiofónica, a pedagogia, e como instrumentista é indiscutível. Sirvo-me dele como um exemplo apenas. Há ziliões de compositores extra-muros que persistem na via denominada de neo-romantismo. O eufemístico óximoro que designa este salto quântico para trás na música. Não é um trás que vem da noção de progresso. Coisa mais que escorregadia quando se fala de Arte, mas para trás em termos de fuga e negação do real. Há mais realidade numa ballata de Landini do que numa qualquer adoçicada xaropada neo-romântica. Que para além do mais dura, dura, dura, tal como o coelhinho da Duracell, só que a duração aqui não vem da superior química creativa mas de uma incapacidade de os reagentes passarem por muitos estados intermédios: é uma música falha de ideias. Adiante.

Outra coisa que me desagrada por demais é a "moda", não muito recente diga-se, mas em relação à história da Música recentíssima, do uso ad nauseam do vibrato por parte dos instrumentistas de cordas. Escapa por enquanto o contrabaixo. Todos os outros estão contaminados por este míldio que impede a música de fluir e se torna num truque barato que disfarça a falta de capacidade técnica dos músicos e encanta os papalvos. Transformando a orquestra numa espécie de realejo versão deluxe. Só falta um macaquinho com uma caneca de lata na mão, atado por um baraço à estante do maestro aos saltos.

Mesmo Paganini usava o vibrato com discrição, e nos comentários às suas peças escreveu sobre isso. O vibrato na linguagem interpretativa musical são como os palavrões na linguagem coloquial. Tem a sua utilidade e servem o seu propósito. Mas têm que ser utilizados com discrição, caso contrário perdem eficácia e tornam a linguagem grosseira e vulgar. Assim é com o vibrato.

E as técnicas de arco como o portamento? Onde ficam? No estrume da história?

Um adágio medieval mantém que é preciso ter cuidado com um homem que só conhece um livro? E com os músicos que só parecem saber uma única técnica de tocar instrumentos de corda?

A suite de Lopes-Graça está furos acima da peça de Alexandre Delgado. Já usa mais as cores da orquestra, e aproveita melhor o aspecto rítmico. Contudo, continuo a achar a música de Lopes-Graça muito longe da genialidade que muitos lhe atribuem. Pode até ser que tenha peças mais interessantes, mas eu ainda não as ouvi. Tal como já aqui escrevi acho a música deste autor algo pesada: demasiado grave. Reconheço o importante papel que teve na dinamização do meio musical português. Mas tenho alguma dificuldade em perceber onde começa o verdadeiro mérito e acaba a beatificação de que foi alvo por via da sua corajosa oposição ao antigo regime, bem como a sua militância política. Espero ter outras oportunidades para ouvir a música de Lopes-Graça, e poder formar uma impressão mais definida.

A peça de Eurico Carrapatoso foi para mim a mais interessante da segunda parte do concerto. Aproveitamento do timbre dos instrumentos, dos aspectos rítmicos, com um pico em Júbilo. Esta música foi composta com base em música tradicional portuguesa.

A peça de Vasco Azevedo que encerrou o concerto juntou o coro à orquestra. Aplicam-se aqui os considerandos que tinha referido a propósito da canção Bela Eurora que o compositor escreveu para o Coro Ricercare e que abriu o concerto. Acho-a agradável, mas sem grandes motivos de interesse.

Em suma um bom concerto muito por culpa do coro, que teve uma muito boa prestação a contrabalançar o menos bom da orquestra. Fica também a ideia de haver um hesitar da parte dos compositores, pelo menos de muitos deles em assumir a sua própria voz, em persistir em fórmulas esgotadas e de gosto dúbio. Aconchegando o mínimo denominador comum dos auditórios lusos. Em vez de assumir a sua própria voz apesar do público. Procurando ser sincero a si mesmo. Há o querer sol na eira e chuva no nabal, i.e., querer agradar ao público que quer ser violado pela Arte e ao que quer uma Arte que questione e que desassossegue. Há uma tentativa da farmacopeia musical de cruzar um opiáceo com uma anfetamina. No fim sobram padecimentos do aparelho digestivo. Uma certa azia, e sobretudo, um saber a pouco.

Faço votos por uma música portuguesa descomplexada. Liberta das viroses da politiquice e da música de intervenção. De intervenção só conheço a polícia. Conheço também os panfletos e os graffitis que conspurcam o nosso quotidiano e são mais uma das poluições que agride a nossa vista. Liberta também da doentia tendência de querer agradar a todos, quando para isso se emascula e fica estéril.

Do que tenho ouvido, a jovem geração de compositores portugueses é bem capaz de fazer do melhor. Basta que assuma a sua condição de música "marginal" que é e será enquanto se mantiver o actual domínio dos conglomerados como os dos Srs. Paes, Balsemão e Horta e Costa. Cujo único móbil é ganância desenfreada. E tudo está bem desde que eles e os seus corretores sebosos continuem a facturar. Que interessa se cada vez a estupidez está melhor implantada. Who cares? Quem vier a seguir que apanhe os cacos.

Não é uma tirada anti-globalização. Antes pelo contrário adoro a globalização e acho-a uma grande oportunidade. Sem ela não estaria a escrever em Português num site alojado num server situado nos Estados Unidos e que usa um software holândes, livre como só a Internet poderia proporcionar. É uma tirada contra a falta de ética. Contra a falta de princípios que não sejam só a idolatria do $ acima de todas as outras coisas.

Este concerto foi realizado por ocasião do lançamento do CD do Coro Ricercare cujo repertório foi ouvido neste concerto. A bela sala da Sociedade de Geografia estava cheia. O concerto começou com 15 minutos de atraso.

Umas breves palavras sobre o programa distribuído. O facto de ser grátis jamais pode ser desculpa para uma elaboração menos cuidada, diria mesmo desleixada do mesmo. Uma folha A4 dobrada ao meio, num papel cartonado com um tom sépia esbatido. Na capa uma fotografia de uma onda no mar. Coisa que só percebi depois. De tal modo a fotografia não foi tratada tendo em conta como iria ser reproduzida, que dir-se-ia estar perante uma macro-fotografia de uma erupção cutânea. Quatro fontes diferentes, algumas em 2 estilos e em tamanhos diferentes. Parece uma árvore de natal tipográfica. O texto numa letra minúscula. Linhas de texto demasiado largas para o tamanho da fonte e para a largura da página. No alinhamento das peças, em vez de surgir uma única vez o nome de cada um dos compositores, surge o nome repetido em cada linha. Gosto dúbio e incapacidade de organizara a informação de uma forma racional. O programa é mau. Algo com muito espaço para ser melhorado.

Uma boa iniciativa do Coro Ricercare e da Associação Musical do mesmo nome em prol da música portuguesa tradicional e actual. Pena foi que a Sinfonietta de Lisboa não tivesse abrilhantado mais tão auspiciosa ocasião como é a do lançamento de um CD num mercado infinitesimal como o nosso. Ao Coro Ricercare e à associação:

Keep up the good work.