são carlos 2005-2006: "sou português, fui enganado..."
appa writes on 26.Jun.05 at 12h54
sao carlos theatre

A passada semana, com grande pompa foi anunciada a temporada 2005-2006 do Teatro São Carlos. Desenganaram-se os ingénuos que esperariam algo de diferente. Mais do mesmo, aliás outra coisa não seria de esperar do cinzentismo programático e da falta de ideias do Dr. Pinamonti.

Aproveito para dar parte da minha estupefacção, ou talvez nem por isso estupefacto, perante as loas que unanimemente se cantam por aí a bandeiras despregadas, no que ao labor do Dr. Pinamonti diz respeito. Desconheço pessoalmente o dito, e desinteressa-me fazer deste escrito um ataque pessoal do sobredito. Sirvo-me dele como um foco sobre o qual incide o meu discorrer. Ele é apenas um demasiado fácil alvo para que eu na minha preguiça cogitativa outra coisa não possa fazer do que dele me servir. Adiante.

A saloia condição que não poucas vezes na lusa pátria se faz sentir, de absolver tudo o que de fora vem como sendo bom, mesmo quando nem sequer assim-assim é, tem concerteza responsabilidades no coro ululante que se faz em torno da prestação do Dr. Pinamonti. Pois se o homem esteve noutros teatros Europeus, é porque é bom. É bom e pronto. Não há como sair daqui. Ele até conhece muita gente por esse mundo fora no que ao teatro lírico diz respeito. Ele está well connected. Só por via do seu nome e das suas relações pode colocar o nosso querido teatrinho e a sua temporada no mapa da lírica Europeia. Afinal somos europeus ou não?

Nesse sentido saliento a frase que proferiu a propósito do superior desígnio da temporada próxima: "de afirmação como grande teatro europeu". Isto o São Carlos, é claro.

Vejamos os programados para ascender a tão almejada condição.
Para além da habitual enxurrada de ópera romântica italiana, oferece-nos uma ópera de Mozart — O Rapto do Serralho — uma de Rossini — O Barbeiro de Sevilha — oferece também uma anelar tetralogia, cuja primeira prestação "O Ouro do Reno" será paga entre Maio e Junho de 2006. Há ainda uma operática proposta Tchaikovskyana.

Depois há, no dizer do próprio Pinamonti, "inusitadas" propostas. Uma ópera de Hindeminth, uma de Azo Corghi, cuja característica mais "interessante" é o facto de ter sido escrita sobre uma peça do nosso Nobel laureado mais recente. Depois há uma ópera de um romântico lusitano de nome Augusto Machado.

E assim se faz uma temporada lírica. Juntam-se uns concertos avulsos da Orquestra residente e zás, já está. Para que isto seja bem deglutido há que apresentar simultaneamente a assinatura de um protocolo com um mecenas, e com a presença da responsável tutelar para abençoar a aliança. E que ninguém separe, o que o deus manco e vesgo uniu. Depois para uma digestão sem sobressaltos há que arregimentar la prensa, para acefalamente se inibir de opinar coisa outra que não seja uns comentárioszitos mais ou menos inócuos, mais ou menos vácuos, na boa tradição jornalística lusitana.

Se a programação do São Carlos tem uma filosofia e uma direcção eu não a consigo perceber. Deve ser problema meu, sempre me foi dito ser uma criatura de excepcionalmente lenta compreensão e de pouco ágil inteligência. Eu que até vou pouco à ópera. E que acho toda a ópera romântica italiana, mas não só, uma grosseira berraria sem nexo, muito bem esgalhada pelos seus criadores no sentido de entreter e assumir poses idealistas perante um público que em geral de ideias nem o seu orvalho conhece, um público que quer ser violado pela Arte — neste caso é mais arte — um público que como burguês que é, passeia orgulhosamente a sua afectação pedante como capa da mais beata incapacidade de avaliar as coisas e de construir o seu próprio gosto. Basta ir a uma qualquer récita do São Carlos para ver espécimes destes em grandes doses. É o inebriante odor dos 25 perfumes diferentes que geriátricas senhoras de vison guarnecidas generosamente sobre si derramam e que nos entra narinas adentro e debilita por demais a capacidade de recepção do que está a ser apresentado. É o burburinho contínuo que se ouve nos camarotes e nos resgatam do abismo do insuportável silêncio.

É para este público que o Dr. Pinamonti programa. Os velhos reaccionários saudosistas da época de "ouro" do São Carlos com as noitadas de inesquecíveis sirenes como a Callas, a turba indistinta que se dá ares porque vai à ópera, porque é chique, porque é fino, porque é giro. E além do mais pode-se no interlúdio dar dois dedos de conversa com as afinidades que igualmente marcam presença. Sim que ninguém se equivoque o mais importante de uma récita do "Otello" é de facto o intervalo. Não posso senão concordar.

A aposta no status quo, a incapacidade de abalar as velhas fundações do São Carlos, para correr com os ácaros que se infestam nas suas madeiras, é mesmo a pedra de toque das épocas Pinamonti. Para quando uma reorganização da orquestra sinfónica portuguesa? E do coro residente do São Carlos. Que está há muito rotinado numa lógica do melhor funcionalismo público? E o enxame de maestros de duvidosa qualidade que acumulam tachos de honorabilidade e similares? Qual avença solidária que a nação lusa lhes resolveu conceder a troco das suas muito esquecíveis prestações. Confesso que nunca ouvi a orquestra ao vivo. Ouvi-a inúmeras vezes na rádio. Está ainda na minha memória uma memorável apresentação do Requiem do Cherubini na Festa da Música deste ano. O desacerto era tanto que parecia um acerto. A desafinação do coro e da orquestra, o molestar desenfreado da obra do pobre Luigi era de fugir com a casa às costas.

Não há risco na programação do Dr. Pinamonti. Deve ser da idade. Digo eu, preconceito próprio de quem ainda não chegou lá, e não sabe se o fará. Mas há também qualquer coisa mais. Lembro-me do quixotesco acto do dito ao cancelar duas óperas agendadas para a passada temporada apenas uma semana antes de eleições legislativas em que se sabia a côr do poder ia "mudar". Assim fica-se bem com o novo poder e a reboque dá-se um ar de indignação, coisa que cai sempre bem, num país em que a indignação é coisa timorata, não vá alguém ficar chateado. Sobretudo os powers that be.

Constato que a ópera Barroca está ausente da temporada próxima. Será que o Dr. Pinamonti do alto seu assento programático se deu ao trabalho de indagar as obras de um tal João de Sousa Carvalho? E de um tal Francisco António de Almeida, que a propósito se comemoram os 250 anos do desaparecimento. E o Pedro Avondano? E os 250 anos do Terramoto de Lisboa? E um tal António Teixeira, que em parceria com um tal António José da Silva, cujos 300 anos do nascimento este ano se assinalam, escreveram das mais corrosivas e lúcidas obras acerca da maleita lusitana?

E os compositores portuguese comtemporâneos? Conhece? Se calhar não tem tempo. O jet lag é lixado, e quando está na bela Olissipo, o seu cérebro está num outro fuso horário. É dura a vida de um director artístico do São Carlos.

É mais fácil os enlatados. Dão menos trabalho. Siga as ideias dos directores de programas das nossas têvês e V. Exa irá longe. Uma óperazita Verdiana aqui, uma Wagneriana ali, e com nomes "sonantes" na encenação, mesmo que depois seja uma m*rda. E está feito. É claro que assim não se atrai novo público. Serão sempre os mesmos, maioritariamente geriátricos a irem lá. Mas isso até é bom. Estes mesmos geriátricos em geral não sabem pensar pela seu próprio crânio, donde estais assim assegurado do sucesso retumbante da vossa bem gizada temporada. A receita é fácil: dá-se ao público o que ele julga que quer, envolve-se tudo numa massa europeizante, de ligação a outras salas et voilá. Não são precisas nem água das Pedras, nem sais de frutos. Vai tudo pela goela abaixo com fluidez.

Para aqueles que padecem do fígado, ou cujo estômago é delicado, há sempre a alternativa de uma ementa de dieta: não meterem lá os pés. É o meu caso.

Admirar-se-ão alguns com a minhas obssessivas analogias alimentares. Mas se acaso passarem pelo largo de São Carlos um destes dias podem por vós próprios apreciar a nova esplanada do São Carlos. De teatro de ópera a tasco o tombo não é tão grande quanto se possa pensar. E a vidinha custa a todos, donde mais uns cobres aqui, outros ali e a magra bolsa vai ganhando umas muito necessitadas gorduras.

E o mecenas no meio disto tudo? Coitado, desde que continue a passar os cheques e a ter récitas privadas não tem muito donde se queixar. Afinal o que percebe um banco de ópera? Nada. Deixai isso para as mentes esclarecidas e capazes. Estais em muito boas mãos nada temei. Boas-aventuranças não vos faltaram por via de vosso empenho em coisas da cultura. Mostra que tendes outros desejos para além do vil metal, além disso lembrai-vos que podeis sempre lisonjear vossos bem mais fornecido$ clientes com récitas privadas.

E assim se faz uma temporada de ópera em Portugal. Não adianta resmungar. É que nem só de pão vive o humano, e se é verdade que o São Carlos custa milhôes ao guloso erário público, também é verdade que é como um farol na noite que guia a frágil nau das nossas aspirações num mar traiçoeiro e de baixios cheio como é aquele em que ora navegamos.

Navegar é preciso, pensar não é preciso.