susana duarte & nuno vieira de almeida no são luiz: syrinx
appa writes on 29.Mar.05 at 22h48
Assisti a um muito bom concerto pela soprano Susana Duarte acompanhada pelo pianista Nuno Vieira de Almeida na passada terça-feira 22 de Março.

O programa interpretado consistiu em canções de Debussy e Hugo Wolf, detalhadamente:


A primeira parte do concerto foi excelente. Susana Duarte cantou com afinação, com sensibilidade para as palavras, com subtileza.

O final da primeira canção:

(...)
triste lyre qui soupire,
je rêve aux amours défunts.
(...)

O modo como Susana Duarte pronunciou o défunts, a "desfalecer", uma completa congruência entre o texto, a música, e o cantar.

Nuno Vieira de Almeida comunicou muito bem o carácter pontilhista da música de Debussy. A primeira parte foi para mim o momento alto do concerto. Susana Duarte tem um talento especial para cantar a música de Debussy. Com grande sensibilidade para as nuances subtis, para a interacção entre a música e o texto: o peso exacto de cada fonema e a sua articulação com a música.

A segunda parte é outra história. Antes do mais a música de Hugo Wolf agrada-me bastante menos que a de Debussy. Sei que é uma música romântica "inovadora" cheia de cromatismo, sei também que Wolf encarna perfeitamente o ideal do artista romântico dado a arrebatamentos, inclusive morreu de sífilis, coisa tipicamente romântica. Viveu torturado pela relação com a mulher do seu patrono. Estas coisas reflectem-se naturalmente na música. Sinto uma rejeição orgânica a este ideário romântico decadente. Acresce que quase nada sei de alemão, o que limita a minha apreciação dos Lieder de Wolf. Embora não me parece que venha daí o principal problema, pois que gosto bastante dos Lieder de Schubert.

Susana Duarte cantou bem, e Nuno Vieira de Almeida tocou bem, mas, mas, o meu encanto quebrou-se. Teve alguns momentos muito belos, em que a soprano exibiu a sua sensibilidade para o texto. Mas prefiro de longe a ligeireza profunda de Debussy à profundidade ligeira de Wolf.

A iniciativa, da responsabilidade do pianista, é de louvar. A de apresentar novas vozes no belo espaço do Jardim de Inverno do São Luiz. Pena é que estivessem 1/2 dúzia de gatos na sala. Pena é também que se ouça a ventilação da sala como fundo. Pena também que o programa contivesse apenas os textos originais. As traduções para português eram fornecidas separadamente mediante pedido expresso. Quando entrei jamais me foi oferecido tal. Talvez tenha sido um esquecimento. Não sei. Para além disso as traduções vinham em poucos práticas folhas A4 em vez de virem no formato de brochura A5 do programa. Notas ao programa não há. É pena. Há umas biografias dos intérpretes. É bom. Pena é que não haja um texto apresentando a filosofia do ciclo novos cantores. Não gostei também da ideia peregrina de fazer um intervalo num concerto de cerca de 60 minutos. Compreendo que os intérpretes precisem de se refrescar, sobretudo a cantora, mas há uma óbvia quebra de concentração e de ritmo ao fazer um intervalo decorridos 30 minutos. Será que é um gesto na direcção do tão propalado défice de atenção de que se fala? Não sei. Sei que me desgradou e que afectou a minha concentração e a intensidade com que seguia o concerto. Foi um verdadeiro duche de água fria no meu entusiasmo.

O São Luiz tem um problema de divulgação das suas actividades. Site na WWW não há. Coisa pouco original nos espaços da responsabilidade da egeac. O São Jorge não tem. O que até se compreende dada a reduzidíssima actividade que há no mesmo. O Teatro Maria Matos também não. Se calhar o $ só chega para os "belos" cartazes das sardinhas que tão prolificamente são disseminados pela cidade a quando das festas da mesma. Não chega para ter um site sobre um espaço como o São Luiz. Compreende-se.

Se chega para trazer as popstars do belkanto como o argentino José Cura. É difícil de perceber como se pode fazer mais no sentido de uma administração responsável e esclarecida dos debilitados cofres públicos em prol da kultura na bela cidade de Lisboa. Estamos bem entregues.

Fica deste concerto a certeza de que Susana Duarte é uma excelente soprano. Fico com vontade de a voltar a ouvir. Uma boa iniciativa do São Luiz, e do pianista Nuno Vieira de Almeida. Mais como esta precisam-se. Porque não criar um ciclo de Novos Cantores distribuido ao longo do ano?

Keep up the good work.