divino sospiro em mafra: elementary, dear watson
appa writes on 20.Oct.05 at 23h14
Sherlock Holmes

Assisti a um bom concerto pela orquestra Barroca Divino Sospiro sob a direcção de Enrico Onofri. A abrilhantar a ocasião estiveram as sopranos Joana Seara e Orlanda Isidro, bem como o cravista Fernando Miguel Jalôto que foi solista no concerto para cravo constante do alinhamento.

Por falar em alinhamento, desalinhamento total seria o termo mais correcto. Pois que este meritório projecto luso de orquestra Barroca parece falhar em aspectos que não sendo de carácter musical são, pode-se dizer, para-musicais. Já assisti a muitos concertos, mas nunca, nunca, nunca, nunca assisti a um concerto em que havendo uma alteração de monta no alinhamento do programa, os músicos em geral, ou alguém na vez deles, não tivessem a elementar cortesia de o indicar ao público. Se no caso de músicos forasteiros, havendo uma barreira linguística, estes não hesitam em informar o público das alterações, no caso de músicos portugueses a coisa devia ser mais que elementar. Mas como se comprovou em Mafra o passado Domingo, nem sempre o que é elementar, trivial mesmo, garante o fluir das coisas.

Será uma originalidade lusa que o Divino Sospiro quer implantar no meio da Música Antiga? I wonder? Terá sido desleixo? Se foi é imperdoável. Para quê trabalhar com afinco para tocar bem se depois por atitudes de grosseria com o público se sabota esse trabalho. Grosseria é mesmo a palavra certa. Como designar o facto de tratar o público como um mero receptor passivo, deixando-o a adivinhar o que está a ser tocado, e que poucas vezes correspondeu ao indicado no alinhamento do programa. Os músicos têm todo o direito de alterar o programa, mas têm também o dever de informar o público dessas alterações. Estranho a apatia de Onofri, músico traquejado, perante o desmando da comunicação com o público. Nem só do tocar vive um projecto como o Divino Sospiro que iniciou recentemente a sua internacionalização. Se tiver por outras bandas a atitude que demonstrou no passado Domingo em Mafra, temo que os augúrios sejam pouco animadores.

É também grave, embora nada estranho, que o público tenha aplaudido de pé a prestação dos músicos na segunda parte, pois que se foi indubitavelmente muito boa com momentos excelentes, devia ter mostrado o seu desagrado perante a falta de curialidade despudoradamente exibida. Mas quem frequenta os auditórios lusos, e sabe cheirar o ambiente, está farto de saber que o discernimento está longe de ser a sua característica mais notável.

Termino este proémio às impressões musicais propriamente ditas, indicando o alinhamento que vinha no programa e aquele que adivinho ser o que foi efectivamente tocado.

O que as minhas quase inexistentes capacidades de percepção
extra-sensorial me dizem que foi tocado é:

Quanto à música. Bem começou de não muito promissora forma, com a disposição dos músicos na sala.

  1. não havia palco: os músicos tocaram ao nível do auditório;

  2. a disposição foi pouco feliz: o órgão estava muito longe do cravo e como os violoncelos tocaram de lado, quase não se ouviam.


Na segunda parte, que se iniciou com a sinfonia de Avondano a coisa melhorou bastante. Os violoncelos rodaram um pouco e começaram a ouvir-se.

Na abertura da Oratória de Almeida, as trompas estiveram incapazes de acompanhar o ritmo da orquestra, embora tocassem razoavelmente afinadas. Coisa sempre de louvar, pois que está lontano de ser fácil.

Joana Seara cantou a cantata de Almeida junto ao cravo bem mergulhada no tutti, disso se ressentiu a sua prestação, pelo menos naquilo que chegava aos ouvintes. Pois que tudo formava uma sopa sonora, em que a voz da soprano estava misturada com os restantes instrumentos, não se destacando de forma clara. Acresce que Joana não é muito alta, donde mais prejudicada foi. Quanto ao seu cantar, tem um timbre agradável, embora nada de particularmente atraente ao ouvido. O seu principal problema é, utilizando uma terminologia teatral muito Stanislavsky e pouco Shakespeare. Isto é a procura de uma expressividade corporal em detrimento de uma expressividade da linguagem. Furore espressivo na face e postura que não se acorda com um indiferenciamento na linguagem. Não tem grande noção do ritmo, das pausas, do modo como a linguagem se articula com a música. Resta saber até que ponto isto não deriva da infeliz disposição adoptada.

Uma nota muito negativa para o cravista. Esteve muito bem nos recitativos. Mas, mas, deu uma nota completamente extemporânea, 2 ou 3 segundos depois do tutti se silenciar, antes de iniciar novo texto. É mais que natural que surjam notas fora do tempo num concerto ao vivo. Mas o cravista procurou não disfarçar a nota fora do tempo rindo-se. Deveria, julgo ter procurado disfarçar em vez de arreganhar a a tacha para o maestro. Parece-me falta de profissionalismo, e mesmo um certo desprezo pelo auditório. Com esse sorriso como que transformou uma simples borbulha num melanoma na sua prestação musical que tinha sido até aí muito boa.

Foi no concerto do Anónimo para cravo que Jalôto foi solista. Aqui novamente veio à tona a falta de traquejo desta orquestra e uma confrangedora falta de presença de espírito. Deixaram o instrumento solista — o cravo — na sua posição inicial: imerso entre os demais instrumentos. Recordo-me de uma ocasião em que a Akademie für Alte Musik num concerto das derradeiras Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian na Academia de Ciências, teve o cuidado de movimentar o cravo para a frente da orquestra, que por acaso era mais pequena que a do Domingo em Mafra, para que se ouvisse melhor o instrumento. Os próprios músicos deitaram mão ao cravo e deslocaram-no para a frente. Seria pedir que o Divino Sospiro tivesse o mesmo cuidado?

Como tal o trabalho do cravista foi bastante prejudicado, uma vez que estava demasiado distante do público. Do que consegui ouvir pareceu-me bem, mas nada de notável.

No fim da primeira parte tinha uma sensação como aquela que se tem quando se é convidado para um jantar algures, e no fim da refeição está-se com azia do espírito e do corpo: os anfitriões e os convivas são enfadonhos, a ementa prometia, mas a confecção deixa algo a desejar. Vai uns sais de frutos para alisar o estômago. Já tinha ouvido esta orquestra tocar muito melhor. Parecia-me ter regredido.

Na segunda parte, iniciada com a Sinfonia de Avondano, as coisas compuseram-se. A anima marcava presença, a sonoridade melhorou muito, e a força ao tocar surgiu enfim. Destaque para os sopros, com Pedro Castro muito bem no oboé barroco. Gostei.

Na primeira parte Joana Seara cantou. Na segunda cantou Orlanda Isidro. Já dei aqui conta vezes várias que o modo de cantar de Orlanda me agrada. Isto desde a primeira vez que a ouvi cantar. Tem um timbre cativante. E tem uma coisa que eu valorizo de sobremaneira que é a inteligência na compreensão do texto. O modo como articula a música com o texto. E isto serve a música e serve texto. Torna-se inteligível. Tem também bom gosto na utilização da dinâmica. Jamais resvalando para uma gritaria para impressionar papalvos. A orquestra esteve muito boa e a soprano esteve excelente, sobretudo nos Mattutini dei morti de David Perez. Gostei menos das peças de José Joaquim dos Santos. A música não é tão boa quanto a de Perez. Embora Orlanda também tivesse cantado no meio da orquestra, ouviu-se melhor, talvez porque é um pouco mais alta que Joana Seara. Mas arrisco que teria soado melhor se estivesse mais à frente.

Para mim, o melhor do concerto foi o concerto de Avinson. A orquestra tocou muitíssimo bem, com balanço, com força, com controlo. Aqui sim, constatei que há progressos importantes no tocar da orquestra. Parece finalmente ter encontrado as sua secção de cordas, aquilo que era nitidamente o seu ponto mais fraco, e tem já uma sonoridade de conjunto.

Extra programa foi tocada uma peça vocal, cantada pelas duas sopranos. Agora cantando à frente. Donde pude comprovar que esta é a posição que deveria ter sido utilizada sempre. Joana esteve muito melhor, ou então fui eu que a ouvi melhor. Não sei onde acaba o mau ouvir por via do posicionamento da soprano na primeira parte e começa o seu maior ou menor acerto no cantar.

Perante a aclamação do auditório que enchia a pouco mais de metade a grande sala da Biblioteca do Palácio de Mafra, os músicos ofereceram ao público um segundo encore, o Allegro do concerto de Avinson. Pareceu-me sair ainda melhor do que antes. O que reforça a ideia de um crescendo constante desde o início da segunda parte na prestação da orquestra.

Gostei tambem do guitarrista, cujo nome desconheço, pois no programa vem indicado como sendo Maria Carreira, a menos que seja um hermafrodita, deve ser um erro, ou uma alteração à última da hora que não tiveram a cortesia de indicar ao público. Bem como o nome do segundo violoncelista, pois que no programa figura apenas um. Mais um erro de comunicação da parte da orquestra num concerto fértil em tais.

Em suma um bom concerto com falhas graves ao nível da comunicação com o público, que em última análise revela desleixo e falta de consideração pelo mesmo.

O projecto tem futuro: isso é óbvio, mas tem umas arestas cortantes a demasia a limar. Espero que as arestas não se revelem ser de titânio mas de chumbo ou alumínio.

Um último apontamento. Por vezes a afinação demorou demasiado. Não compreendo porquê. Depois da afinação individual entravam num frenesim de afinação colectiva, mas próprio de uma orquestra sinfónica, desconheço com que propósito. Será para chamar a atenção do público?

Esperava que Onofri, que esteve bem na direcção, fosse mais exigente com os aspectos para-musicais.

Keep up the good work and obliterate the bad manners.