ano novo em são roque: ajudai o melómano que sofre
appa writes on 12.Jan.05 at 15h39
Assisti a um mau concerto o passado Sábado na igreja de São Roque, um concerto a fechar a edição 2004/2005 do festival homónimo.

O coro Voces Cælestes e a Orquestra Barroca Capela Real, redefiniram para mim um novo mínimo na apresentação de obras corais.

E se o coro é simplesmente medíocre, já a orquestra é sem nada que a redima.

Foi a segunda vez que ouvi estes intérpretes. Tinha ouvido ambos pela primeira vez na edição de 2004 do Festival de Órgão de Lisboa. Na altura não me tinham deixado boas impressões, mas acho que todos merecem uma segunda oportunidade e por isso fui a este concerto.

O programa interpretado foi:

Com os solistas:

A direcção do coro e orquestra foi de Sérgio Fontão.

A prestação da orquestra começou fraca e acabou desastrosa. Já tinha percebido a quando do concerto integrado no 7º Festival de Órgão a que tinha assistido, que a orquestra não sabe marcar a diferença entre os andamentos lentos e rápidos convenientemente. Isso na altura foi mais que audível com o concerto para cravo de Carlos Seixas. Faltou força, alegria, fluidez. Mas tocou com um mínimo de afinação e coordenação. Coisa que neste concerto esteve ausente.

O Dixit Dominus foi desastroso, com "belas" batalhas entre os primeiros e segundos violinos a ver quem conseguia dar a nota mais dissonante e ser mais dessincronizado.

Isso para além da habitual passividade na interpretação. Deixam a música fugir, sem que sejam capazes de a aliciar para se quedar por ali. Um fluxo de notas só é música, quando é: ordenado, direccionado, tocado com intencionalidade. Fora disso é apenas um desagradável caos sonoro sem ordem.

A ária para soprano e contínuo Tecum principium do Dixit Dominus foi feia. Feia no sentido de o violoncelista Miguel Ivo Cruz e o organista Rui Paiva terem esvaziado a partitura de música. Saíu uma coisa aos soluços, sem anima. A soprano Orlanda Isidro fez o que pode com as migalhas musicais que os seus colegas do contínuo serviam.

Nas duas primeiras peças, os oboés não se entenderam bem. Sendo isso mais audível na segunda peça. Pedro Castro ainda tentou remar contra a maré. Mas de facto a má prestação da restante orquestra não esteve de modos e arrastou tudo e todos consigo num vórtice de mediocridade.

Gastaria demasiado tempo e largura de banda a citar os inúmeros casos de desacerto da orquestra. A questão que se me coloca é esta:

Para um projecto com 10 anos como a Capela Real não seria de esperar que tocasse melhor? Tanto mais que surgiu num vácuo, i.e., surgiu antes de qualquer outra orquestra especializada na interpretação do Barroco. Activo sempre precioso no lançamento de qualquer empreendimento.

Constou-me que houveram um número razoável de ensaios. Donde sou levado a concluir que para além uma cultura de desleixo e falta de exigência nesta orquestra a direcção deu o seu beneplácito em tal. O que me conduz à actuação do coro Voces Cælestes.

Desde que o ouvi no Te Deum de Mendelssohn no Sé de Lisboa o ano passado que mantinha as minhas dúvidas quanto à sua qualidade. Dúvidas que foram desfeitas neste concerto. Este coro não tem uma boa articulação entre as várias tessituras. Não consegui ouvir os altos e os baixos. Ouvi uma massa sonora onde se distinguia ténuamente os sopranos e os tenores. Controlo da dinâmica é coisa que existe residualmente. Algumas das partes corais são a várias vozes. Contraponto foi coisa que não se ouviu, parecia tudo uníssonos. A música sai sem fluidez: aos solavancos.

O coro entrava qual rolo compressor e cilindrava a orquestra, que até agradecia para acabar com a sua miséria. Estamos a falar de um coro com 25 elementos e de uma orquestra de 16 músicos.

Quanto aos solistas estiveram bem na medida do possível. Dado que se a orquestra e o coro se portam mal, é difícil, para não dizer impossível, que as coisas corram bem para os solistas. O desastre musical é contagioso.

Gostei bastante do tenor João Rodrigues. É claramente alguém talhado para a interpretação da Música Antiga. Consegue ser expressivo fazendo-se ouvir bem. Confesso que já assisti a concertos com agrupamentos estrangeiros de grande prestígio em que os tenores estavam muitos, muitos, furos abaixo de João Rodrigues. Tem uma boa compreensão do texto, para além de um timbre de voz agradável.

O barítono João Oliveira não começou bem no Nisi Dominus. Teve algumas saídas extemporâneas. Mas esteve bem no Dixit Dominus. É expressivo e compreende bem o texto.

A meio-soprano Joana Nascimento não canta mal, mas a sua voz está longe de me cativar. Tem uma forma de cantar algo inexpressiva e articula as palavras de uma forma que se me tornam incompreensíveis.

Da soprano Rute Dutra pouco ouvi. Uma pequena aparição no Dixit Dominus. É-me difícil avaliar. Pareceu-me muito nervosa. Terá sido pela ocasião? Terá sido pela má prestação do coro e orquestra que instalou um ambiente propício ao desastre? Não sei.

Orlanda Isidro esteve bem, na medida do possível. Pareceu-me um pouco irregular na primeira peça, que cantou a solo. Começou algo titubeante.

Last but not least. A direcção de Sérgio Fontão desagradou-me. Mesmo que os músicos sejam maus, é responsabilidade do maestro ter uma espécie de toque alquímico musical. Transmutando o chumbo em ouro. Ora neste caso foi o contrário. Muitos dos músicos que aqui tocaram já tive oportunidade de ouvir noutros contextos e se aí se portam bem, não há como evitar a conclusão que para além da cultura de mediocridade da orquestra o maestro não soube, ou não quis, extrair as pepitas de ouro do filão, que até pode ser pobre e estar cheio de pirite. Mas mesmo a pirite brilha. O chumbo é que não.

Uma palavra para a organização. As palavras proferidas por um casal de apresentadores, lidas sem entoação nem direcção, a saudar as "excelências", os convidados e a ralé, entre a qual orgulhosamente me incluo, e os "jovens" de Taizé, eram perfeitamente dispensáveis. Havia um programa detalhado disponível que torna redundante as breves palavras proferidas. As excelências tiveram direito a uns cadeirões na parte mais alta da igreja quase na zona da orquestra, o que em nada ajudou a acústica do concerto. Não poderiam ter sido sentadas nos bancos da frente da igreja? Adiante.

O público em grande medida era constituido por geriátricos desembrulhadores de rebuçados, muitos dos quais bateram palmas de pé no fim. Bem como as excelências, quiçá por uma questão de diplomacia de conveniência, eventualmente nalguns casos por incapacidade para avaliar correctamente o repasto musical que lhes foi servido, e/ou mesmo por paternalismo.

Nada tenho contra mediocridade. Ela é a textura contra a qual se define a excelência. É por isso imprescindível. Contudo algo está mal quando ela asfixia a excelência.

E se no concerto anterior falamos de um coro amador com uma orquestra essencialmente feita à pressão de alunos do conservatório, aqui falamos de um projecto que já vem de longe e de músicos na sua grande maioria profissionais. Donde mais triste é o caso.

O concerto será repetido no dia 30 deste mês de Janeiro de 2005 na igreja da Conceição no Porto. Pode ser que corra melhor: mas dificilmente correrá bem. A cultura instalada é de falta de exigência, porque razão haveria de mudar em 21 dias se 10 anos não parecem ter surtido efeito algum. Se estiver na vizinhança vá lá e julge por si. Desde já convido-o a escrever aqui a sua impressão desse concerto.

A vida é demasiado curta para gastar tempo com coisas medíocres. Pelo menos assim o entendo. Para mim esta orquestra e este coro — que fazem um verdadeiro duo "dinâmico" — estão arquivados. Dei-lhes as duas oportunidades que tenho como regra: chega.

A vida continua.
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> caro appa: li a sua crític
> by jgaldis on 13.Jan.05 at 23h10
Caro Appa:
Li a sua crítica ao concerto da Capela Real, ao qual não assisti. Devo dizer-lhe que "houveram" está para a língua portuguesa como a Capela Real está para a Música Antiga.

Júlio Galvão Dias
 
> houve e houveram
> by appa on 16.Jan.05 at 14h01
Caro Júlio,

Compreendo o seu comentário. Estando longe de ser um especialista na questão, digo-lhe que a forma está certa:

houveram é a 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo do verbo haver.

O que encontrei na Internet via google não é conclusivo quanto ao emprego desta forma.

Só porque uma forma é pouco utilizada não quer dizer que seja incorrecta. Concedo que esta forma seja "rara" hoje. Mas de modo algum isso invalido o seu emprego.

Eu gosto do som da palavra. É mais musical, parece-me.