think tiny: bom, bonito, balato
appa writes on 09.Aug.05 at 20h20
Mr. Burns

Há já algum tempo que ando com vontade de escrebunchar sobre os grandes líderes empresariais lusos e do seu completo desinteresse pelas coisas da Cultura em geral, e da música em particular.

Questão: o que aconteceria se de hoje para amanhã os (des)mandantes resolvessem por decreto emanado das mais altas instâncias da república acabar com a música dita clássica? Podem sempre invocar o estafado e sobre-abusado argumento da contenção do défice. Sim, sei que tal como eu alguns de entre vós têm outras ideias acerca de medidas para contenção do défice. Mas têm um pequeno óbice: não dão votos. Donde não permite aos corsários e bucaneiros manter a sua galé a flutuar, com a qual realizam inúmeras lucrativas abordagens no turbulento oceano da coisa pública.

A verdade é que à parte meia dúzia de beaux esprits que escrevem em diversos pasquins, jamais se veriam manifs nas ruas do país, a grande silenciosa maioria continuaria a sua rotina diária como se nada fosse. Haveria também uns quantos políticos que fariam alarde da sua hipocrisia gesticulando abundantemente, seria também a prova provada da suas preocupações culturais e que nem só de chicana política vive o homem de partido.

Nada disto é novo. Fede o ranço de tais ideias. Há muito tempo que a história oxidou as coisas da cultura e da Arte. Os políticos e os seus controleiros perceberam que quanto mais ígnara a maioria silenciosa mais fácil é de conduzir para atar ao engenho e dar à nora até que o poço seque. Nem sequer é uma coisa exclusivamente lusa. Há por essa Europa fora sinais mais ou menos ténues, mais ou menos fortes, deste tipo de prática. Claro que aqui no extremo Ocidental do continente a coisa adquire contornos quase demenciais.

Mas as responsabilidades não podem ser só assacadas aos corsários. Os artistas, ou os que se reclamam de tal condição têm tantas ou mais responsabilidades. Na sua azia romântica da busca de "liberdade", na incapacidade de se impor e aceitar restrições, e no sua capacidade de auto-avaliação transformaram aquilo que deveriam servir: a Arte, numa paródia, ou quando muito num enfeite que os mandantes exibem na lapela quando dá jeito para ficar bem na foto. Numa comum folia deste nosso tempo desistente, resolveram exigir direitos esquecendo-se dos deveres. Como explicar as aberrações como a Popart, e o seu cinismo canalha. Em que a busca a todo custo do lucro cobre como uma diáfana túnica a falta de talento e arte — no sentido do artifício — dos ditos artistas. É possível conspurcar megatoneladas de árvores mortas com tinta argumentando ad nauseaum acerca dos "méritos" de tais obras. Mas como alguém disse, tudo aquilo que precisa de ser muito demonstrado não tem grande valor. Sim, pode-se falar da crítica social, da sociedade de consumo, da arte para as massas. Da horizontalidade das várias formas. Em que é que um conspurcador de paredes é menos que um Andrea Mantegna (1431-1506)? Interrogação que qualquer revisionista da escola do Ressentimento não tem pejo em colocar e responder pela negativa.

Claro que este contexto atiraria para o cimo gente que para além de servir o imediato interesse nada mais têm na mente. Assim somos presenteados com políticos de uma beata vacuidade e com patrões e funcionários de gestão igualmente vácuos e que para além do supremo $ nada mais atraí a sua débil atenção. Um exemplo.

Há na lusa pátria um Sr. de cuyo nombre no quiero acordarme, que durante sete anos desempenhou um alto cargo executivo numa empresa lusa que é grande capitalização do Euronext Lisboa e que durante esses mesmos sete anos essa empresa apoiou uma iniciativa de concertos de grande qualidade. Em mais de 50 concertos tal figurão dignou-se a presentear os demais entes assistentes com a sua augusta figura duas vezes apenas. Sim, eu perçebo. Tal mago da finança, tem pouco tempo para trivialidades. Ele são entrevistas ao Wall Street Journal, ao Financial Times, muito solicitadas intervenções no Fórum Económico de Davos, &c. Tal figura tem uma forte consciência social, e não vos admireis se o virdes a passear criançinhas dos ghettos lisboetas no Oceanário ou algo de semelhante. Assim que chegou ao topo da organização em que sempre ocupou cargos cimeiros, por via da sua reconhecida filiação partidária competência, uma das medidas inaugurais foi a terminar o apoio a tal iniciativa. Em vez disso, em solidariedade com o camarada de partido ministro da cultura, resolveu alocar as ditas verbas, que antes eram destinadas aos concertos, em apoiar uma instituição paquidérmica do Teatro em Portugal e que ganhou já vários prémios a propósito dos feiíssímos cartazes com que anuncia as suas produções. E que tem como assistência média meia dúzia de ratos pingados, pois que nem gatos vadios atraí. Os concertos estavam quase sempre esgotados, mas as récitas das peças estavam a larvas de mosca. É ou não o colocar do supremo interesse nacional acima das comesinhas conveniências?

E agora? Hoje canícula do ano da Graça de 2005? Hoje o comglomerado que tal figurão capitaneia já mandou a solidariedade partidária às urtigas, tanto mais que o seu compañero e partido foi apeado do poleiro, e resolveu voltar-se para os festivais do Malte Levedado, onde mentes jovens vácuas e sedentas de sabedoria e álcool, derretem as avantajadas mesadas que os papás tão diligentemente abandonam aos caprichos das moças e mancebos. Sim, sempre se podem ir impigir uns telefones 3G, uns kits adsl do batráquio. Agora falamo$ a língua boa. Facturar, facturar, facturar.

Que se lixe a cultura, e a música clássica. Para além do volume da minha carteira, que é como quem diz dos meus chefes, e do meu umbigo nada mais me interessa. Tal figurão, não nasceu em berço de ouro. Pelo menos não num de sangue azul. Injustiça que os Deuses cometeram, mas que a Fortuna que sorriu a tal figurão se encarregou de corrigir ao proporcionar-lhe uma aquisição bon marché de um título nobiliárquico.

Apenas um exemplo da actual casta dirigente da nação. E se se pensar noutros exemplos, não é claro quando é que o dito mecenato deixa de ser uma atitude pensada e com intento, e passa a ser uma mera prestação de uma troca de favores com os políticos que assim conseguem manter tona coisas como o Tasco Teatro Nacional de São Carlos, por via dos inúmeros constrangimentos orçamentais. Desvia-se o dinheiro dos contribuintes da Cultura, sim porque isso não dá votos, convém ter bem presente sempre, para coisas que dão, e para as cliques partidárias.

São milhões, e mais milhões em obras de Santa Ingrácia, que apenas servem para guarnecer o bolso de uns quantos corsários e bucaneiros.

Mas os corsários & bucaneiros são apenas um epifenómeno de algo que consiste da crescente irrelevância da Arte na sociedade actual. Ingmar Bergman utiliza a metáfora de pele de cobra. Que é pele apesar da cobra que vestiu antes estar já morta. Ele próprio se considera uma das formigas que está na pele e que a quer transformar em algo de nutritivo.

Há quem fale na irrelevância das "elites" e do seu gosto. Prognosticando um não sei muito bem o quê de idílio social. A deslocação da esfera da Arte para a esfera do social. Mas isso não é mais que o ideal do grande formigueiro. Quando a Arte não mexe connosco, não nos revolve as entranhas então ela está a determinar a sua própria irrelevância e consequente extinção.

O que mexe mais connosco:

  1. Uma apresentação do l'Orfeo de Monteverdi?

  2. Um concerto em que se toca a 5ª de Mahler?


Acho que a resposta está na resposta a esta tão singela questão.