jovens compositores na culturgest: tangente não, secante
appa writes on 24.Jan.05 at 13h55
Assisti na sexta-feira e sábado a dois razoáveis concertos por ocasião do encerramento do 3º Workshop de Jovens Compositores organizado pelo serviço de música da Fundação Calouste Gulbenkian.

O compositor Emmanuel Nunes que orientou a oficina seleccionou 10 peças que os participantes submeteram para serem interpretadas nestes 2 concertos: 5 na sexta e as restantes 5 no sábado.

Uma iniciativa meritória da Gulbenkian a que a Culturgest se associou cedendo o seu grande auditório e a habitual simpatia e ambiente salutar. Contrastando com a habitual afectação ignara que pontua os concertos na Gulbenkian.

Claro que em 10 peças há coisas muito desiguais. Essa desigualdade provém das diferenças de talento, trabalho, experiência, percurso e capacidade técnica.

Contudo nos dois dias houve algo que se manteve: a prestação medíocre da Orquestra Gulbenkian. Salvo algumas excepções no segundo dia, a prestação foi fraca. E só quem nunca ouviu uma orquestra que toca música contemporânea de forma competente como a OrchestrUtópica ou o Remix Ensemble, pode achar que a coisa saíu bem.

Mas antes do mais o programa do primeiro dia:

A orquestra Gulbenkian foi dirigida pelo maestro Guillaume Bourgogne.

Para além da música de Schönberg não me cativar, como de costume. As duas primeiras peças foram as mais fracas dos dois dias. Falta de ideias, falta de direcção, numa palavra: confusão. Tal é perfeitamente perceptível nos textos que cada um dos compositores escreveu para introduzir a peça.

Passo a citar, porque este tipo de tonterias são profundamente nocivas para alguém que queira se aventurar em qualquer domínio da criação artística. São regurgitações de ideias vácuas que nada têm dentro. E se dada a juventude dos compositores tal é desculpável, nada absolve os respectivos professores por permitirem tal verborreia surge.

Carlos Miguel Marques encerra o seu texto escrevendo — comentários meus entre parênteses:

A recontextualização, reformulação e reenunciação do material de base originam a exploração de novas perspectivas (quais?) do mesmo material, que se perfilham como processos de proliferação do material (o que é que isto quer dizer?), que trilhando o caminho desde a célula germinal — o fragmento — até à constituição, numa acepção quasi biológica, de um tecido orgânico e auto-regenarador, atingem o estádio último do seu desenvolvimento: atingem o estado fundamental ou de repouso, em que a lei da conservação da energia os mais recompensa: o movimento horizontal cede lugar à estrutura vertical, que se abrevia na sua forma irredutível: uma "nota".

Antes dos mais a conservação de energia e o "repouso" — o estado dito aqui "fundamental" (em relação a quê não sei) quer significar equilíbrio — são coisas diferentes. Não é este o local para entrar em detalhes. Para quem no currículo tem a frequência do curso de Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, esperava uma cultura científica um bocadinho melhor.

Pode ser que seja hype & cool falar da biologia e achar que com isso a peça tens uns toques de contemporaniedade, que se corta através dos vários domínios da cultura do séc. XXI. Mas isso em nada contribui para a qualidade musical da peça. Certo que há compositores como Ligeti, por exemplo, que tem uma boa formação científica de base, e que vai ao mundo da Ciência buscar ideias que desenvolve depois musicalmente. Para Ligeti a composição é assim uma forma de laboratório onde se testam os conceitos científicos. Mas isso pressupõe que se estude minimamente o assunto e não um simples glosar dos artigos "científicos" de um jornal diário que resulta num mero scientific buzzword bingo.

A música reflecte esta confusão. Nem dei por ela. Ou melhor dei, todas as células do meu corpo clamavam pelo seu fim. Assim que terminou houve uma auto-regeneração dos tecidos dos meus pavilhões auriculares.

Segue-se a peça de Rui Penha com a peça Sublimatio. O tema convoca o universo dos primórdios da Química: a Alquimia, e o conceito psicológico dai derivado.

O compositor termina o seu texto escrevendo:

Sublimatio parte ainda de uma problematização do tempo como dimensão indissociável da existência e das suas leituras à luz dos princípios éticos de cada um, o que, acreditando na impossibilidade de diferenciar as escolhas estéticas dos princípios éticos, implica, pelo menos ao nível endémico, um dever de responsabilidade totalmente incoerente com uma perspectiva individualista — sem todavia refutar a especialidade individual — e uma noção clara de que o equilíbrio — e não o compromisso, a simetria ou o meio termo (o que é que a simetria tem a ver com o meio termo?), quantas vezes sinónimo de cobardia ou mediocridade — só é possível se for transversal ao todo e à totalidade das partes. Sublimatio é dedicada aos meus pais.

Word padding. É o termo que uso para catalogar este tipo de textos. Tudo aquilo que precisa de uma conversa cheia de floreados "eruditos" e de um número anormalmente elevado de substantivos para ser demonstrado não tem grande valor.

O que há aqui é uma confusão tremenda e o infiltrar da música por um discurso vácuo que provém das "ciências" onanísticas à la Sokal — que é uma paródia —, Baudrillard, Foucault e outros. A música fica a perder. Quando se elabora sobre o nada, obtém-se nada. Adiante.

A peça de Luís Soldado resgatou a Euterpe das mandíbulas cariadas da pseudo-ciência e da sua halitose empestadora da música. Tornou também claro a falta de empenho da orquestra. Gostaria de ter ouvido esta música com uma orquestra mais competente na música contemporânea.

A Orquestra Gulbenkian não tem uma preocupação com o aspecto tímbrico, coisa que a música contemporânea explora, e sem a qual muito daquilo que tem para oferecer ao ouvinte se queda pelo caminho entre a partitura e o ouvido. Tem falta de fluidez. A articulação entre os naipes deixa algo a desejar. A pianista, que também tocou a celesta, entrava sempre de forma extemporânea e parece não fazer a menor ideia de como a música deve soar. Produzindo um som incaracterístico, que enfadava.

Naipes diferentes tem concepções radicalmente diferentes acerca da forma como a música deve soar. As percussões são mais nervosas e enérgicas que as cordas. Estas últimas soam incaracterísticas, sem se comprometerem com uma abordagem mais enérgica ou mais pausada. Dentro do naipe dos sopros há coisas semelhantes. As trompas estão melhor que os clarinetes e os fagotes. Há uma incoerência ao nível do som, que debilita seriamente o resultado da orquestra como um todo. Mais abaixo volto à questão da orquestra Gulbenkian.

Entre uma exploração mais subtil das texturas sonoras até a exploração dos contrastes dinâmicos a peça propõe ao ouvinte uma grande amplitude de experiências sonoras. Por isso, e porque é uma peça não contaminada por alienígenas extra-musicais, a peça de Luís Soldado foi a primeira que me agradou.

Vasco Mendonça propôs uma peça de carácter mais experimental, que sendo agradável, está muitos furos abaixo daquilo que fez na peça vencedora do Prémio Lopes Graça do ano passado. O convocar de vários períodos da história da música, o contraponto de Bach, e o neo-classicismo Stranviskiano não se reflectiu de forma clara na peça, parece-me. Feitas as devidas ressalvas pela interpretação algo débil da orquestra Gulbenkian.

Bruno Soeiro ofereceu ao auditório a melhor peça do primeiro dia. Somewhere Becoming Silence. Explorar o silêncio e o que em torno dele gravita. Ensaia um diálogo entre o silêncio e a música. Foi a peça mais mutilada pela orquestra. Jamais consegui sentir o silêncio, a não ser em fugidias ocasiões, logo cilindrado, pela pianista que esteve no seu habitual: mal. Com uma melhor orquestra o caractér mais poético desta peça deverá sobressair. No grande auditório da Culturgest na sexta-feira foi tolerado como um cão vadio: com um misto de pena e crueldade.

Segundo dia, Sábado 22 de Janeiro do ano da graça de 2005. O programa interpretado foi:

Gostei da peça de Jaime Reis. Alguns dos violinistas tocaram distribuidos pela parte lateral do auditório. Foi mal tocada, para variar. Sem empenho nenhum, como quem faz um frete. Tinha umas palavras para serem ditas, que foram balbuciadas a medo por entre os dentes. Não percebi nada. E estava numa fila próximo do palco. Imagino os que estavam mais atrás. Um dos pontos baixos interpretativos dos dois dias. Numa palavra: desmaselo. Como tal do pouco que me chegou aos ouvidos gostei. O caractér mais reflexivo contrastando com partes mais animadas, e as palavras que não percebi.

A peça da compositora Teresa Ferreira Gentil, de nome Sattva & Rajjah convoca a cultura hindu. Confesso que não percebi muito bem a associação entre os conceitos indicados de Sattva e Rajjah, e a música. Acresce que como muitos dos conceitos orientais, são bastante ambíguo se querem dizer muitas coisas. Por vezes uma coisa e o seu contrário podem estar na mesma palavra. Por isso a associação feita pareceu-me redutora. Falta de entendimento e também de ideias.

Patrícia Sucena de Almeida foi beber as ideias à fonte da Renascença e da Idade Média tardia, o gótico no seu explendor complexo que é introdutor da simplicidade renascentista: Hyeronimus Bosch e o seu A Extracção da Pedra da Loucura que se encontra no Museo del Prado.

Também aqui há confusão, que como não podia deixar de ser, inexoravelmente se reflecte na peça. Bosch é muito mais um homem do medievo do que da Renanscença. Por isso o Mens Sana in Corpore Sana é despropositado para Bosch. Sendo algo muito mais ligado à Renascença e à divulgação da anatomia e da medicina. Será um ensaio sobre a loucura e a sanidade mental? Assim parece. Não é contudo claro ouvindo a peça se alguma vez a loucura desaparece ou se um estado de existência num limbo entre a loucura e a "normalidade" é o que resulta. Uma peça sem direcção, sem se perceber o que se pretende.

César Oliveira ofereceu a melhor peça destes 2 dias de concertos. Tangente: uma peça concisa, ritmada — a propósito o aspecto rítmico parece ser algo pouco explorado a julgar pelo que ouvi nestes 2 dias de concertos — com energia, direcção. Gostei. Três minutos de música pura. A orquestra Gulbenkian já deu mais um ar da sua graça, até aí muito pálida. Foi mais uma secante que cortou muita música menos boa e menos bem tocada que se ouviu por aquelas bandas.

Bruno Gabirro, vai até à Renascença para nos oferecer uma elaboração musical sobre o filósofo "herético" Giordano Bruno (1548-1600). Uma peça que procura trazer um aspecto misterioso que se revela quando a música flui. A orquestra Gulbenkian esteve bastante melhor nas 3 últimas peças. Seria o facto de estarem já próximo do fim? Agradou-me.

Last o Webern. Continuo a não gostar por aí além, embora me desgrade menos que o seu mestre Schönberg. Parte dos equívocos que os jovens compositores têm resultam dos equívocos que Schönberg instalou, e que resultam de uma incompreensão da natureza profunda do processo científico achando que tudo se pode resumir a um sistema mecanístico. But I digress.

A Gulbenkian é a instituição mais poderosa na Cultura em Portugal. Tem rios de $ que jorra das entranhas da Terra a um ritmo de megatonelagem diária. Tem uma orquestra residente desde 1962. Isto afasta o aspecto da insuficiência financeira como alibi para a falta de qualidade exibida nestes 2 concertos pela orquestra.

Tem uma temporada de concertos cheia de estrelas e onde o aperto financeiro não parece existir. Donde não é por falta de contacto com músicos de nível que se pode explicar o que ouvi nestes 2 dias.

Talvez o problema esteja na cultura de falta de exigência que existe na Gulbenkian. Recordo uma ocasião durante uma conferência científica a decorrer no auditório 2 da Gulbenkian uma Sra. de cuyo nombre no quiero acordarme, alta responsável da Instituição, leu um texto em inglês, sem pontuação sem pausa, sem nada. O pressuposto era explicar aos conferencistas um pouco a missão da Fundação: a sua estrutura organizativa, o seu orçamento, as suas actividades. Foi o texto mais mal lido que alguma vez ouvi. Foi uma mui triste figura e deu uma péssima imagem da Fundação.

Por outro lado. Das poucas vezes que lá fui, o público que frequenta a Gulbenkian é em geral incapaz de avaliar o que lhes é apresentado. Bate palmas de pé a tudo, e hurra e grita sonoros bravos, como se uma besta taurina jazesse por terra no palco e o músico tivesse cortado uma orelha. Quando uma orquestra se apresenta frequentemente perante um público ignorante e que vai à Gulbenkian para ver e ser visto, i.e., como meio de promoção social, ela perde o seu referencial, e acaba por deslizar para um medíocre sofrível em vez de laborar por um muito bom ou excelente.

Atitudes como a de os músicos tagarelarem uns com os outros quando os colegas se arrumam no palco e esperam que o maestro entre, não são conducentes a um nível de concentração que resulte numa prestação de bom nível. O ar blasé e anafado que muitos dos músicos usam como uma máscara que se colou à face e não sai, é um sinal da cultura de desleixo que depois resulta fraco auditivamente. O barulho dos arcos a baterem nas estantes quando alguns dos segundos violinos deixam de tocar, o que revela falta de cuidado, o ar de quem está a fazer um frete aos jovenzitos e aos lunáticos que gostam destas "esquisitices", são para mim sintomas de que algo está mal. A melhor coisa que pode suceder à orquestra Gulbenkian é sair da Gulbenkian mais vezes para tocar. No final do segundo dia as coisas já estavam muito melhores. O que significa que é mais um problema de orientação e do contexto do que da qualidade técnica dos músicos.

O maestro Guillaume Bourgogne foi simpático. Mas isso não chega. Foi pouco exigente com a orquestra e não conseguiu instalar um clima de disciplina e rigor no trabalho.

Em suma uma muito louvável iniciativa da Gulbenkian, que só peca por ser anual. Uma maior frequência precisa-se. Para os compositores, público, e sobretudo para a orquestra que não está bem neste reportório e quer mais traquejo nestas lides.

Keep up the good work.
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> ligeti científico
> by g_proenca@yahoo.com on 24.Feb.05 at 12h37
Sinto-me na obrigação de fazer um reparo.
Ligeti não é o compositor de que está a falar quando cita o seu nome. Está a falar de um outro, não deste.
Ligeti não é nem nunca foi um cientista, Ligeti não tem um pensamento científico, nem a sua música nem o seu discurso o denunciam (nem a sua biografia).
Correm-se bastantes riscos quando se ultrapassam os limites da música na crítica musical.
Se os compositores fossem julgados por aquilo que escrevem ou dizem (e não pela música que compõem) o Livro do Sérgio Azevedo acabava com essa classe artística em Portugal. Se até os históricos compositores dizem grandes, enormes disparates, exijamos aos novos apenas que componham minimamente bem. Os textos de concerto são a coisa mais difícil de fazer para um compositor, e são normalmente obrigados a fazê-lo - como aliás foi o caso do tal Livro: ou escrevem alguma coisa ou estão sujeitos a não existir.

É bom ter alguma calma ao escrever certo tipo de coisas, violentas e puramente terroristas. Para não morrer pela boca, como o peixe.
 
> terroristas & combatentes da liberdade
> by appa on 24.Feb.05 at 18h25
Caro g_proença,

Sobre o que escreve:

Ligeti não é nem nunca foi um cientista, Ligeti não tem um pensamento científico, nem a sua música nem o seu discurso o denunciam (nem a sua biografia).


Em lado algum escrevo que Ligeti é um cientista. Não sei onde arranja matéria para tal. Escrevo que:

Certo que há compositores como Ligeti, por exemplo, que tem uma boa formação científica de base, e que vai ao mundo da Ciência buscar ideias que desenvolve depois musicalmente. Para Ligeti a composição é assim uma forma de laboratório onde se testam os conceitos científicos.


Falo em "formação científica de base". Será que ele efectivamente a tem? Vou dar-lhe a voz, numa entrevista concedida ao Le Monde de La Musique de Maio de 2003, mês em que Ligeti fez 80 anos — nascido a 23 de Maio de 1923 em Tirnaverni, na época era na Hungria e chamava-se Dicsoszentmárton, mas hoje é na Roménia — página 48.

(...) Je voulais apprendre la musique, mais mon père me poussait vers les sciences naturelles et j'était plutôt doué pour les mathemátiques...

(...) Ce n'est devenu sérieux qu'après le baccalaureát. Mes origines juives ne me permetaient de entrer à l'université de Cluj pour étudier la physique.


Na página 50, a propósito das peças como San Francisco Polyphony (1973-1974) e Trois Pièces pour deux pianos (1976):

Avant d'avoir vu les dessins d'Escher, j'avais dejá apliqué cette ideé dans le Poème pour cent métronomes et dans Continuum pour Clavecin (1968): (...)
Cette application vient d'un intérêt pour les illusions d'optique et les stroboscopes. Ma mère etait ophtalmologiste et, dans son cabinet médical , mon œil fut attiré par les images en trois dimensions des stéréoscopes. Lorsqu'on est enfant, on reste trés impréssioné par ce genre de phénonomène. Ma passion pour les mécanismes, elle, me vient de mon oncle, responsable em Transylvanie d'un atelier de typographie.

Pode também ouvir uma entrevista que Ligeti concedeu a John Tusa para a BBC Radio 3 aqui.

Saliento uma frase:

If I have a hobby outside music, is mathematics.

Jamais disse que Ligeti usa matemática. Mas que usa conceitos científicos, que tenta transpor para o domínio do som, como refere acima a propósito das peças para 100 metrónomos e para cravo. Jamais disse que era o método de composição. Aliás, ele é precisamente um compositor que se demarcou dos vários partidos da música do séc. XX. E ele sabe do que fala porque conheceu esses movimentos por dentro. Se há uma característica da sua personalidade que se reflecte na música, é a curiosidade.

Quanto ao meu "terrorismo", assim o apelida, ao escrever sobre o meu desagrado acerca do texto. Concordo consigo acho que um compositor deve compor bem, o texto é secundário. Mas se não tem nada para dizer deve calar-se. Caso contrário corre-se o risco de debitar tonterias como as sobreditas.

Além de achar neste caso que a música reflecte a confusão de que os texto em causa são uma exemplar ilustração.
 
> como é natural, não re
> by g_proenca@yahoo.com on 25.Feb.05 at 04h15
Como é natural, não retiro uma única palavra ao que escrevi anteriormente.
As discussões infindáveis são um pouco irritantes... Para além do que se pode perceber comparando o seu texto e o meu comentário (e etc.) e aquilo em que estamos ou não de acordo, devo apenas afirmar com maior clareza: Ligeti é, sem dúvida, um dos piores exemplos em que se podia ter pegado (por isso pensei que fosse um erro), e as citações que faz são completamente irrelevantes para a questão. Como Escher, Ligeti tem uma "boa-cultura-geral-de-base" (este não teve nenhuma formação científica mas está bem atento no pós-guerra, quando toda a gente pensa que sabe de Física). Por outro lado, este compositor nunca utilizou a sua "cultura científica" para defender a sua música (como é implícito no seu primeiro texto: e não o cito porque estamos 'todos' na mesma página).
Mas apenas o exemplo (Ligeti) e o tom (terrorista) são maus (tonterias): estou de acordo que a inspiração-na-cultura-científica é um abuso na linguagem dos artistas, mas é preciso ver se esta pode ou não ser honesta, se as palavras correspondem ou não a uma cultura que de facto se possui - e aqui está o "terrorismo".
Há ainda algo que se esqueceu no seu comentário: o pior para a maior parte dos artistas é ter de falar sobre a sua obra, é ter de estar na Feira do Livro, é ter de estar na abertura das suas exposições, dar entrevistas a jornalistas que pouco sabem sobre nada. Como nesta página, por vezes não é fácil ou possível estar calado.

com os meus cumprimentos
 
> à guisa de conclusão
> by appa on 25.Feb.05 at 14h47
Caro g_proença,

Parece-me haver um equívoco no que escreve. Jamais referi Ligeti como um exemplo de alguém que usa a cultura científica para defender a sua obra. Podia ter recorido a Xenakis se o quisesse fazer. Mas nesse caso acho que há uma certa mistificação que só impressiona quem não saiba um pouco de matemática.

O exemplo que dei de Ligeti, prende-se antes com o facto de ele ter uma cultura científica, e portanto poder se quiser defender a sua música em termos de conceitos científicos. Mas ele não o faz. Nem precisa: a sua música vale por si mesma. Jamais necessita de uma discurso apologético enviesado e vácuo para a defender.

Há também outra questão. Escher e Ligeti são casos radicalmente diferentes. Ao que julgo saber Escher foi marcado por um livro de Cristalografia que leu. Mas a abordagem dele é empírica, mesmo que os problemas que coloca, sobre a divisão regular do plano e outros sejam bastante elaborados. Motivou até um livro editado pelo matemático Roger Penrose. Ao passo que Ligeti tem um percurso académico que lhe permite entrar nas coisas científicas de outra forma. A Hungria produziu antes da guerra um número anormalmente elevado de grandes cientistas: von Neumann, Teller, &c. Logo isso é a prova do elevado nível do ensino secundário hungaro da época.

Estou de acordo consigo que às vezes não é possível calar. E ter que debitar sound bytes para serem vomitados em grande frenesim pelos mass media, é pouco recomendável. Concedo também que a dita imprensa especializada está infestada de pseudo-kultos cuja verborreia empesta o ar. Mas há uma opção, e que é a que eu sigo: ignorar. Não passo cartão à crítica de jornal & afins em geral. Claro que há as poucas excepções que confirmam a regra.

Se acaso lhe aprouver e para rechaçar os equívocos que possam surgir, sugiro-lhe que leia aqui o que penso da crítica. E sse PDF está lá desde o lançamento do site.

Atentamente,
António Almeida